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segunda-feira, outubro 07, 2019

Amigos de quatro patas


texto publicado no jornal Cidade de Tomar de 4 de outubro

No canil intermunicipal de Tomar (e Ferreira do Zêzere), situado no Parque Empresarial de Tomar (vulgo, zona industrial), residem neste momento cerca de 20 gatídeos e 170 canídeos, dos quais 35 pequenos cachorros.
Tecnicamente o canil está sempre esgotado, isto porque por cada animal que sai para adoção, há dois ou três à espera para entrar. E naturalmente a capacidade máxima varia, porque depende do porte dos animais, da sua perigosidade, entre outros fatores.
E isto apesar de em 2017 termos feito um investimento municipal na casa dos 100.000€ que permitiu duplicar a capacidade e também, eliminar o canil até aí ainda existente no Flecheiro, que não apresentava há muito condições mínimas.
Entretanto, a nova Lei só permite o abate em circunstâncias bem definidas, e que são as mesmas que já eram aplicadas em Tomar. Mas a questão é que qualquer instalação tem uma capacidade finita e o nosso canil é obviamente igual. E por isso, a gestão das disponibilidades verso as necessidades existentes é uma dor de cabeça diária.
Para que seja claro, a responsabilidade dos municípios é sobre animais errantes. Ponto. Não têm qualquer responsabilidade, ou capacidade, para intervir em situações privadas ou de proprietários que por algum motivo deixam de querer cuidar dos seus animais.
E por vezes é muito difícil explicar isto aos munícipes que só querem ver o seu problema resolvido. Não!, os canis municipais não servem para os cidadãos se livrarem dos seus animais. Aliás, ser cidadão deveria ser compreender mais esta questão básica de cidadania. E depois há épocas do ano ainda mais difíceis – o verão é uma delas – em que o abandono aumenta imenso.
Sublinho, os donos são a todo o tempo responsáveis pelos seus animais, não podendo deles descartar-se quando por algum motivo não os querem; e o mesmo vale em situação de herança, o que por vezes é difícil fazer compreender a algumas pessoas. Os animais são, legalmente, a todo o tempo responsabilidade dos seus donos e respetivos herdeiros.
Para além destas situações que deveriam ser básicas de civismo, e onde a natureza humana por vezes revela a sua faceta menos boa, é preciso lembrar que, nos termos da Lei, a identificação  (chip) de canídeos é obrigatória, assim como a vacinação. Todo o proprietário está obrigado a fazê-lo.
Já a esterilização não é obrigatória, mas é altamente recomendada e a melhor forma de minorar o problema dos animais abandonados que, prevejo, vai tendencialmente agravar-se nos próximos tempos.
A esse propósito, dizem-se muitas coisas que não são reais, normalmente nas redes sociais. Isto para dizer que sim, o governo lançou uma candidatura para apoiar os municípios que desejem iniciar procedimentos de esterilização. Mas as regras para esse apoio são muito difíceis de alcançar. Tomar, só neste momento está em condições de o conseguir, e será dos primeiros.
Claro que para minorar todas as dificuldades anteriormente descritas e outras, ajudará a que o município volte a ter nos seus quadros veterinário, ou veterinária municipal. Temos o concurso a decorrer (infelizmente a burocracia faz com que os concursos demorem muitos meses), e quase terminado, para admissão de novo profissional o que vai permitir avançar com mais trabalho e qualidade, nomeadamente no início de um plano mais completo de esterilização de canídeos e gatídeos.
Em todo o caso, e porque queremos ser um concelho cada vez mais amigo dos animais e daqueles que optam ter um animal de companhia, para além dos investimentos que tenho vindo a referir, nomeadamente no canil, mas também num maior apoio tanto financeiro como de trabalho de parceria com a Associação Protetora dos Animais, ou na introdução das campanhas de adoção que há três anos iniciámos, a cidade vai em breve, num projeto de parceria com a freguesia urbana, ver nascer os seus primeiros wc canino e parque de treinos canino.
Por fim, já referi, mas devo sublinhar, a importância da Associação Protetora dos Animais (APARRT) com quem estabelecemos protocolo e que está sediada no canil, e com quem fazemos uma gestão partilhada do espaço, partilhando também dificuldades e soluções.
Lembrar, já agora, que atualmente o chip e a vacinação dos animais adotados no canil é oferecida pelo município, pelo que fica o convite:
Visitem o canil no Parque Empresarial de Tomar, de segunda a sábado, onde serão muito bem recebidos pelas prestimosas senhoras da APARRT, que lhes darão a conhecer os residentes e quem sabe, encontrar o novo amigo lá de casa!

sexta-feira, março 23, 2018

Pós verdade e pós idiotas

Nem a propósito das recentes encrencas do fcbk, o meu artigo da edição de aniversário do jornal Cidade de Tomar, de 16 de março, e em resposta ao tema: a imprensa nos tempos das redes sociais.

Falar da imprensa nos tempos das redes sociais, é antes de mais sublinhar a importância da comunicação social séria. Já quando há década e meia frequentei o mestrado em Ciências da Comunicação, estes temas eram abordados com preocupação. Vivemos agora naquilo que os teóricos referem como o tempo da pós-verdade, uma vez que as opiniões públicas são inundadas com notícias falsas e manipulativas.
Sendo fenómeno global e nacional, podemos observá-lo ao nível local.
Entre muitos exemplos que poderíamos invocar no nosso universo nabantino, uns mais risíveis, outros profundamente sérios, uso este como exemplo: recentemente alguém pôs a circular uma história tão falsa como ridícula, alegando que a Presidente de Câmara teria sido agredida por uma cidadã, aquando da demolição de barracas numa zona na cidade, quando não só a Presidente não esteve no local como é público que nesse dia estava reunida com outros presidentes de câmara e um Secretário de Estado.
Mas há sempre quem partilhe, comente, faça as mais inflamadas afirmações, sem dedicar 30 segundo de inteligência ou mera sensatez a refletir, ou mesmo sem sequer ler aquilo que está a partilhar. A internet está inundada de disparates e flagrantes falsidades.
Ora, não podem as instituições e os seus responsáveis passar a vida a desmentir, corrigir estas situações, pelo enorme consumo de tempo que obrigaria, e porque seria até forma de valorizar esses terroristas da desinformação. E por isso, regra geral, ignora-se.

No nosso contexto nabantino, a exemplo de outras escalas, temos inclusivamente quem o faça de forma regular e persecutória, sendo o caso mais flagrante um blogue (Tomar na rede) na maioria fomentado por um ex diretor de um jornal (e ex funcionário da câmara, diga-se) que de forma sistemática manipula histórias para tentar atingir alguns políticos ou instituições, particularmente a nós na câmara e aos funcionários municipais.
Ora, nestes tempos, a comunicação social séria, com profissionais formados, com regras, com deontologia, com a obrigação de confirmar factos, de procurar contraditório, de sustentar afirmações, deve ser, antes de mais, o garante do pluralismo e do rigor da informação.
Ou não fosse desde o século XIX, por via da imprensa considerado o 4º poder (e muitas vezes tem sido o primeiro), precisamente como forma de vigilância e perscrutação sobre os poderes políticos (executivo e legislativo) e judicial, mas também como forma de atuação sobre a sociedade no seu todo.
E se assim for, estou certo, com adaptações naturais, a imprensa saberá manter-se pertinente e encontrar até novos públicos, da mesma forma que a rádio sobreviveu à televisão, e a televisão, com mudanças, saberá resistir à internet.
Mas começa por nós, consumidores. Na linha do que antes afirmei, da mesma forma que não aceitamos que qualquer pessoa nos arranque um dente, também não devemos aceitar que qualquer pessoa nos impinja “notícias”.
É responsabilidade de todos nós cidadãos livres, pensantes, com apego à verdade e liberdade com regras, sabermos a bem da cidadania e salubridade mental coletiva, ignorar e repudiar quem prevarica e, em casos mais gritantes e graves, denunciar.
Porque, como diria um amigo presidente de câmara do nosso distrito, idiotas sempre os houve, as redes sociais vieram dar-lhes amplitude de expressão – e é dever de todos nós diminuí-la, acrescento eu.

Aproveito esta missiva para desejar um excelente aniversário ao jornal Cidade de Tomar, e que seja cada vez mais um exemplo daquilo que referi sobre a comunicação social séria, desejo esse obrigatoriamente extensível a todos os profissionais e colaboradores que mantêm o jornal a cumprir a sua missão. Que o façam por muitos e bons anos!

terça-feira, setembro 19, 2017

Pedras no caminho certo?

artigo de opinião publicado no jornal Cidade de Tomar de 15 de setembro

Se defendo que quem governa não comenta, fui coerente durante estes quatro anos em deixar de escrever opinião neste jornal. Agora, ao menos uma vez e porque se avizinha novo momento de decisões importantes para a nossa comunidade, sinto o dever de dizer algo.
Trabalhámos muito nestes 4 anos e com condições muito difíceis, e propomo-nos a continuar a fazê-lo. E há muito trabalho pela frente.
Internamente, continuar a reduzir a dívida e restruturar serviços, continuar a rever regulamentos e procedimentos, tendo sempre em vista a simplificação administrativa e a facilidade de acesso e economia dos munícipes.

Continuar e aumentar a promoção do concelho no exterior a vários níveis, aumentar e qualificar os eventos seja na cultura, no desporto ou noutras áreas, para que a indústria do turismo continue a crescer de forma sustentada, a criar postos de trabalho e a movimentar a economia local.
Rever os instrumentos de gestão do território que têm sido castrantes para o desenvolvimento urbano e levar o novo PDM a discussão pública. Continuar a apostar na reabilitação urbana e na requalificação de espaços da cidade (e nas aldeias) como as avenidas de acesso à cidade ou a Várzea Grande cujos projetos estão em andamento, ou a zona ribeirinha do Flecheiro após a saída total de quem ali foi colocado há mais de 40 anos.

Sobre isso, muito se falou ao longo desses 40 anos mas até este mandato, por iniciativa da Câmara nunca dali tinha saído uma família, nunca tinha sido derrubada uma barraca. Hoje, das 230 pessoas que ali encontrámos no início deste mandato, estão apenas cerca de 150 e vários projetos em curso para retirar as restantes. (E não, apesar dessa mentira ter pegado, nunca prometemos resolver o assunto em 100 dias).
Na área da habitação aliás, e depois do abandono a que os bairros sociais estiveram durante anos, no trabalho conjunto com a freguesia urbana foram reabilitadas e já entregues mais casas do que em qualquer outro mandato autárquico. E, não interessa nada porque não podemos olhar a isso, mas para que conste a verdade, ao contrário do que é dito, a maioria das famílias que iniciou nova vida não é cigana.

Apesar da redução da dívida, e com esforço de rigor e contenção, foi possível nestes 4 anos aumentar os apoios sociais, bem como os apoios na área da educação. As associações de pais por exemplo, recebem hoje a tempo e horas quando há 4 anos, existiam associações a quem o município devia refeições e ATL’s há 9 meses!
Isso é o que se passa também com a generalidade dos fornecedores que hoje recebem na casa dos 60 dias. Que diferença daquilo que encontrámos! O município de Tomar voltou a ter crédito na praça, quando há 4 anos muito fornecedores já só com dinheiro à frente.
E apesar desse rigor e contenção, aumentou-se o apoio ao associativismo e mudaram-se as regras tendo pela primeira vez todas as associações podido candidatar-se independentemente da área em que funcionam.
Aumentaram-se (e muito!) as transferências para as juntas de freguesia, e sempre por acordos de execução, ou seja, com destino previamente acordado, ou que permitiu muito mais obra por todo o concelho, com rigor e transparência.
Resolveram-se problemas de anos, como a ponte do Carril, a estrada da Serra e várias outras, a obra do mercado, o parque infantil ribeirinho, e tanto mais – tudo saído do orçamento municipal sem 1 cêntimo de fundos comunitários!

Cometemos erros, claro. Só quem não trabalha não erra. Particularmente na fase inicial do mandato houve um ou outro que são bem conhecidos. Mas foram resolvidos e servem de aprendizagem.
Não fizemos tudo o que gostaríamos de ter feito, nem ninguém o conseguiria fazer, muito menos com o estado de coisas que encontramos. A dívida sufocante (mais de 37 milhões); os 80 casos em tribunal; a desorganização dos serviços; os veículos, dos bombeiros às obras passando pelos camiões do lixo, em muitos casos a cair de podres.
Verdade por outro lado, é que tanto se inventou contra a câmara nestes quatro anos. É percetível, incomodámos alguns instalados e um certo sistema de hipocrisia social, mas não devemos ignorar e deve ser combatido quem tente manipular ou condicionar a opinião pública com recurso a mentiras ou meias verdades. E muito menos se forem pessoas que tenham ou já tenham tido responsabilidades.
Algumas forças conservadoras que nunca conseguiram aceitar o facto dos tomarenses terem preferido o Partido Socialista nas últimas eleições, um ou outro com ambições de vir para o município como eleito ou como “convidado”, um ou outro só porque gosta de ser do contra ou “dono da verdade”. Um ou outro que é já problema de saúde mental.

Poucas vezes nestes 4 anos se discutiu na praça pública política séria e com interesse para a comunidade e gestão municipal. Inventaram-se histórias, discutiram-se minudências, ameaçaram-se pessoas por não serem da mesma opinião.  E neste fim de campanha o que ainda estará para vir…
Quando se avalia o trabalho em termos da Presidente ou de algum de nós ir ou não à missa, ou estar melhor ou pior vestido, está tudo dito sobre como algumas pessoas ainda pensam sobre o que deve ser a avaliação do trabalho dos políticos e daquilo que deve ser a comunidade.

Só que, apesar de tudo isso, não há qualquer dúvida de quem é a liderança e a equipa melhor preparada para continuar este caminho, continuar a trabalhar em conjunto cada vez mais com a generalidade das instituições, combater um certo cinzentismo e bota abaixo militantes na comunidade, e ter como agora se sente cada vez mais, uma comunidade que olha para o que une e não para o que divide, uma comunidade que percebe que o fazemos juntos fazemos melhor, uma comunidade que olha para os obstáculos com vontade de os resolver e não de culpabilizar alguém por eles.
Por tudo isto, com pensamento sempre positivo e a olhar para o lado certo da vida, apetece terminar este texto com aquela velha frase popular: pedras no caminho? Apanhamo-las todas e ainda vamos fazer (mais) um castelo!
E dia 1, a decisão é de todos e de cada um. Que ninguém deixe de exercer o dever da escolha.

Hugo Cristóvão

Vereador

sábado, setembro 07, 2013

Uma nova etapa?!!

artigo publicado no jornal Cidade de Tomar de ontem

«A mudança em todas as coisas é desejável»
Aristóteles

Setembro. Dia a dia mais próximos de um importante momento de escolhas. As que determinam o futuro próximo da nossa gestão municipal. Passará rápido, entre os sons e as cores de campanha; entre críticas, pedidos e promessas, pouco será já possível esclarecer das ideias e projetos apresentados por cada uma das várias equipas a apresentar-se à contenda.
E que contenda. Aquela que encerra a honra e a responsabilidade de planear, projetar, decidir, fazer em nome de todos os outros. Ou assim deve ser.
Nada portanto que possa ser encarado de forma leviana ou desinteressada. A escolha compete-nos a todos.

Bem sei que muitos ainda exercem essa escolha de forma clubística. “Este” é o meu partido e voto nele independentemente de quem nele se apresenta, com ou sem condições, com ou sem soluções. Felizmente, cada vez mais cidadãos percebem que, particularmente ao nível local, com base numa ideologia é certo, mas é preciso primeiro perceber o que cada um defende e que condições tem para o cumprir.
Cada um aferirá da sua responsabilidade.

Na minha opinião, que penso ser facilmente correspondível, das muitas equipas presentes há vários candidatos a vereadores, mas apenas dois candidatos a presidente de câmara: Carlos Carrão – a continuidade; e Anabela Freitas – a mudança.
Quem ao fim de dezasseis anos de governação promete agora “uma nova etapa”... ou quem afirma convicto querer mudar para algo novo, algo melhor, algo condigno com a terra e o tempo em que vivemos.
Como sempre acontece nestas coisas da política, todas as demais hipóteses, por dispersarem o voto contribuem para manter a continuidade. Igualmente o fará quem optar por se abster.
Cada um é livre e responsável pelas suas escolhas, mas é importante que tenha consciência delas.
Eu e muitos julgamos ser tempo de Mudança, e ela faz-se com todos. Não quero sequer considerar a possibilidade de que seja possível deixar tudo como está, e as queixas de como Tomar está mal recomeçarem logo no dia seguinte às eleições…
Estou convicto que como eu, a grande maioria deseja a mudança, acredita nela, e vai construí-la. Vamos todos, porque só com todos ela se faz.

Mas no entretanto assistamos às manobras costumeiras. Que não havia dinheiro, que era preciso mais uns milhões de empréstimo e afinal, de repente, são alcatroamentos à pressa (que daqui a um ano estão como estavam), são obras no mercado (exatamente as mesmas que podiam estar feitas há dois anos), no Convento de Santa Iria, o aluguer e as obras do pavilhão em frente ao Politécnico, na loja (da antiga PJ) na Alameda 1 de Março fechada há anos, etc, etc…
Genericamente obras necessárias é certo, mas que já podiam ter sido feitas em melhores condições. Porquê só agora?

E outras manobras de campanha. Ainda recentemente a colega de partido de Carlos Carrão, Isabel Damasceno (a ex presidente de Leiria que perdeu a câmara por causa de certas suspeitas, lembram-se?) veio até cá dizer o quanto estava satisfeita com os 27 milhões de obras do QREN em Tomar...
Pois, obras são sempre discutíveis, pelo que fiquemos por esta pergunta simples: quantos postos de trabalho no concelho foram criados com esses milhões todos que ninguém percebe onde estão enterrados?
A grande questão é mesmo, qual a cantiga que os tomarenses preferem desta vez – a do costume?

As últimas linhas desta missiva têm de ser dedicadas à freguesia onde quase sempre vivi: os Casais, agora agregada a Alviobeira.
Parece que por lá a malta do PSD e os seus agentes andaram muito divertidos com a gralha tipográfica que num postal lá distribuído pelo PS menciona a freguesia de São Pedro.
Devo dizer que não cabe a Arménio Breia (que é para mim e muitos um exemplo a seguir), ou à equipa socialista que lidera nestas freguesias, qualquer responsabilidade por essa gralha. A responsabilidade é apenas de um: minha. E por isso antes de mais, a eles as minhas desculpas, bem como a todos os restantes cidadãos das duas freguesias agora unidas.

De qualquer forma, essa gralha é apenas isso, uma troca de nome num texto, passível de acontecer a todos os que produzem alguma coisa. Assunto irrelevante.
Fico por isso contente que seja este tipo de argumentos que se usa para atacar a lista socialista. É bom sinal.
Ainda assim, parvoíce por parvoíce, se quiséssemos entrar por essa via, haveria tanto onde criticar e glosar com os vinte anos de gestão PSD e a lista que agora por lá se apresenta.
Não entro nesses caminhos, os socialistas nabantinos primam pela discussão de ideias e alternativas, a olhar sempre com esperança no futuro, e não pelo achincalhar as pessoas e outras técnicas mesquinhas de “politiquice”.

Para os próximos dias desejo a todos os candidatos nas muitas listas à câmara, assembleia municipal e assembleias de freguesia, uma campanha sã, elevada e responsável. A todos os demais nabantinos, paciência, reflexão, e decisão.
Tomar somos todos, e eu Acredito na Mudança.

sábado, julho 27, 2013

«Transformarmo-nos naquilo que somos»

texto publicado no jornal O Templário de ontem

"A mudança é a lei da vida. E aqueles que apenas olham para o passado ou para o presente irão com certeza perder o futuro."
John Kennedy

«Na última década e meia, Tomar apostou em ser uma cidade para “ricos”, apostou em obras faraónicas sem qualquer rentabilidade para a economia do concelho ou sequer, na maioria, para a qualidade de vida dos nabantinos. Obras muitas delas mal explicadas e devastadoramente onerosas para as finanças municipais.
Pelo meio, um maltratar e afugentar dos investidores; um desinteresse pelas questões sociais indo sempre a reboque e quando obrigado, daquilo que os outros concelhos foram fazendo; uma política de alheamento e por vezes hostilização da maioria das instituições associativas e corporativas do concelho; uma realização de eventos avulsa; um sentimento de asco pelas regras da democracia, particularmente na falta de diálogo, de prestação de contas, e da transparência.

De quem planeou e conduziu estas políticas erradas – de Paiva a Corvêlo, com a presença omnipotente de Relvas – fica aquele que lá está desde o início, sempre um dos principais e hoje o líder imposto, Carlos Carrão.
Numa atabalhoada tentativa de alteração de imagem e apagar do passado, mantendo no essencial as mesmas figuras, quem há dezasseis anos está no poder promete agora aos tomarenses “uma nova etapa”, naquela lógica de quem apesar de ter falhado, querer agora começar algo novo, tentando que os outros ignorem o que fez, não reconhecendo os pesados erros e fracassos. Tal como acontece no governo do país.

Não é isso que Tomar precisa. Tomar precisa de uma nova liderança, uma nova atitude, baseada na competência, na responsabilidade, e no mais elementar bom senso. Tomar precisa para a maioria das questões de algo muito simples: fazer o óbvio.
Mas tal aparente simplicidade requer uma grande alteração de paradigma que começa nas atitudes e nas mentalidades. Tomar precisa aí, para seguir a tudo o resto, de uma verdadeira Mudança.
Precisava dela há dez anos, precisava dela há cinco, precisa da Mudança Agora.

Tomar precisa de cumprir o seu desígnio, e como na máxima filosófica de Nietzsche, Tomar precisa de se transformar naquilo que é. Não esta existência envergonhada em função de um passado glorioso e de um presente tornado medíocre, mas sim saber quem somos, o que temos, e o que podemos com tudo isso fazer. Sermos quem somos sem necessidade de inventar. Muito ao contrário do que se tem, falhando, tentado fazer ao longo da última década e meia. E em muitos aspetos copiando para pior o que outros sem as nossas condições naturais precisaram fazer, fazendo-o bem.

Isso começa no próprio Município. Arrumar a casa, readaptar recursos, reorganizar, modernizar, reorientar para o serviço público à comunidade, com celeridade, economia eficácia e eficiência.
Apoiar, sem boicotar ou complicar os investidores, maiores ou menores que ainda acreditam nas potencialidades do concelho;
Fazer do turismo, alicerçado na cultura, no património e no eventos daí e de outras bases decorrentes, um verdadeiro eixo de desenvolvimento capaz de gerar riqueza e emprego;
Potenciar e reforçar aquilo que nos faz diferentes, que nos faz atrativos, que nos faz competitivos;
Aproveitar verdadeiramente a nossa posição geográfica, criando condições de centralidade, com efetivas condições para uma melhor captação de turismo que cá deixe dinheiro; mas também para a fixação de empresas, ligadas a este e a outros setores. Como os ligados à agricultura, à floresta, aos rios, à logística, ao desenvolvimento tecnológico, sem para isso esquecermos da existência do mal aproveitado hospital de Tomar e do ainda maior contribuidor direto e indireto para a economia local, até hoje não totalmente potencializado ou integrado: o Instituto Politécnico.

Como sempre, a responsabilidade e a capacidade para nos transformarmos, ou para tudo deixarmos na mesma, começa em cada um de nós. Individual e coletivamente, saibamos assumir quem somos, saibamos assumir quem queremos ser.
«Nada é permanente, salvo a mudança», disse o sábio Heráclito. Tomar somos todos e julgo, quase todos desejamos essa mudança. Saibamos cumpri-la com inteligência, ela faz-se agora.
Agora é novamente tempo de escolhas. Aproveitemos estes tempos de verão e eventuais férias para nelas refletir com sabedoria. Aos tomarenses cabe a decisão. Podemos ficar a lamentarmo-nos e a criticar genericamente tudo e todos, mais ou menos alheados, e com isso contribuir, com maior ou menor abstenção, para que tudo fique na mesma.
Ou podemos conscientemente saber que a mudança é possível, só depende de nós. De todos, e de cada um de nós. Assim é uma comunidade: a soma de todas as partes.»

sexta-feira, novembro 23, 2012

"vontade e bom senso"


Texto publicado hoje no jornal Cidade de Tomar.




"O progresso é impossível sem mudança. Aqueles que não conseguem mudar as suas mentes não conseguem mudar nada."
Bernard Shaw


A comissão política do PS de Tomar – o seu órgão máximo – escolhe este dia 24, num movimento igual ao que está a acontecer por todo o país, o seu candidato às eleições autárquicas do próximo ano.
Eu apoio e votarei em Anabela Freitas.
Bem sei que sou suspeito, a Anabela foi a minha sucessora na liderança do PS nabantino. E só deixei a liderança quando estava certo que essa liderança ficaria em boas mãos.
Mas além das evidências partidárias, Anabela reúne logo à partida duas excelentes condições:

- A primeira é a de que será a candidata que reunirá maior consenso entre os dirigentes socialistas desde que me recordo em Tomar.
Sendo certo que, independentemente da votação que venha a ter na próxima sexta, a unanimidade real é impossível de atingir. E ainda bem, da diversidade nascem melhores decisões.
Há sempre quem ache que poderia haver melhor. Algumas vezes porque de facto acredita noutro candidato; outras porque por algum motivo não gosta da pessoa em causa; tantas porque acha que o melhor candidato é ele mesmo. (Por cá acrescenta-se o facto de sempre existirem uns ódios gratuitos e umas invejas à mistura – coisas da sociologia tomarense);

- A segunda condição é a de ser a candidata melhor preparada de sempre no seio do partido socialista – e provavelmente no seio de qualquer força política em Tomar.
Larga experiência política, foi presidente da federação distrital das mulheres socialistas, foi deputada na Assembleia da República (à qual regressou agora por um mês em substituição), e é atualmente membro da Assembleia Municipal de Tomar. Conhece bem a administração pública, e os meandros do estado central em Lisboa. É técnica superior do Instituto de Emprego e Formação Profissional, tendo dirigido o Centro de Emprego em Tomar.
Tem efetivas capacidades de liderança e decisão, sem contudo deixar de ouvir aqueles que a rodeiam e com quem trabalha. E incorpora cumulativamente três coisas essenciais que tanto têm faltado a quem tem governado os tomarenses: capacidade, vontade e bom senso!

Claro que estamos em Tomar. Terra conservadora, onde existe por várias razões uma certa aversão aos socialistas, e onde os socialistas (que malandros!) se preparam para escolher uma mulher para sua candidata à liderança dos destinos do município.
Como vão reagir os nabantinos? Não sei.
Por todo o lado a Mulher tem emergido socialmente. Também nas autarquias há excelentes exemplos com bom trabalho em prol das comunidades – Edite Estrela foi das primeiras, no maior concelho do país, Sintra. Mas Tomar, ao contrário de outros tempos, tem-se mostrado na atualidade um concelho retrógrado e conservador em quase todos os aspetos económicos, sociais, cívicos.
Estarão neste âmbito os nabantinos disponíveis para a mudança?

Sei, e parece que boa parte dos cidadãos também sabe, Tomar precisa de uma mudança urgente no tal “rumo” que o PSD promete em campanha há 15 anos e que nos trouxe a este estado comatoso. Um município desorganizado, excessivamente burocrático, desatualizado, cristalizado;
Um concelho onde se gastaram milhões de fundos nacionais e europeus, e que não soube definir prioridades, com obras inúteis e dispendiosas, uma dívida alta, uma câmara incapaz de fazer alguma coisa de jeito, e menos ainda, planeada e com horizontes de futuro.
Falta de trabalho com as freguesias, com as associações, com o Politécnico, com a comunidade em geral. Uma câmara mandato após mandato pior.
Um concelho com muitas potencialidades, ainda, mas cheio de oportunidades perdidas, de investidores mal tratados e afugentados, de cidadãos e instituições desconsideradas.
Não se trata apenas da necessidade de trocar de partido ou pessoas na liderança do município. É todo o comportamento anterior que é preciso inverter. É todo o método ou a falta dele. É toda a filosofia de atuação que está totalmente ultrapassada. É preciso ouvir, discutir, pensar, planear, priorizar, trabalhar, decidir, fazer. Sem arrogâncias e fantasias megalómanas, com realismo e razoabilidade, com os poucos meios e as muitas dívidas.
Com uma ideia alicerçada, com um projeto, com uma equipa, sei que Anabela Freitas é a pessoa certa para liderar a mudança.

A grande questão que em Tomar sempre se coloca, é saber se os tomarenses querem mudar, ou estão bem assim. Se estão bem, é simples, é fazer o que tem sido feito: é deixar tudo como está, dizer que são todos iguais, e queixar-se no dia seguinte.

domingo, junho 17, 2012

Olívia patroa, Olívia...

artigo publicado no jornal Cidade de Tomar de 15 de junho
transforma-te naquilo que és”
Friedrich Nietzsche

Dizia-me alguém, um destes dias numa esplanada soalheira desta urbe nabantina, que há muito não lia nenhum dos meus disparates, ao que respondi, é porque não quer, basta andar pela net. Pois mas isso “da net” é coisa de jovens, respondeu-me. Eu discordo mas, enfim, fiquei a pensar nisso, e lá encontrei um tempinho para escrever.
Aproveito para falar de um assunto que há algum tempo me inquieta: esta profissão nova que é o “fazer presenças”. “Fazer presenças” é o que “fazem” artistas de fraca qualidade e semi conhecidos das revistas cor de rosa para ganhar uns trocos e umas refeições à borla. É uma ocupação em grande expansão. Muitos dessa espécie de artistas colocam até essa atividade no currículo como se fosse uma coisa séria. Alguns só fazem isso.
Estou certo que é um ofício muito edificante para a alma, saber que basta existirmos e irmos a algum lugar para justificarmos um salário...
Eu escrevi profissão nova? Não, não é nova, o nosso atual presidente de câmara faz isso há 15 anos. Fazer presença na festa da associação, fazer presença no passeio dos idosos, fazer presença na sardinhada, fazer presença na câmara...
Não estranhem… talvez os mais desatentos não se lembrem, mas o grande ídolo António Paiva também foi eleito muito à conta das presenças que fez intensivamente nos anos anteriores à sua eleição, em tudo o que era bailarico e petisco com mais de três pessoas.
É verdade que na maioria das vezes só lá estava o tempo suficiente para tirar a fotografia, mas parece que apenas isso interessa.

Ora pronto, por mais que não queira, lá tinha o assunto que descambar na Câmara! Falar de coisas tristes que não servem para nada é perder tempo, mas fazer o quê, é o hábito. E no que toca a Tomar, todos estamos já muito habituados com o tempo… com o tempo que vemos passar, claro! Anda este concelho há pelo menos 15 anos a ver-lhe passar tudo ao lado, e quando não lhe estão a passar ao lado, estão a passar-lhe à frente.
E agora estamos a ver passar o tempo até às próximas eleições, que já todos vimos que do atual mandato só ficam as dívidas. Também já eram poucas, mais dívida menos dívida...
Bom mas, “afinal ele está a falar de quê”, pergunta o leitor, que vê no título deste texto uma referência à célebre rábula da olívia patroa, olívia costureira – “porque está ele a falar da Ivone Silva”? Não caro concidadão, isto está tudo ligado, continuo infelizmente a falar da Câmara, do Presidente, do PSD… e esta coisa do “fazer presenças”.
É que de há uns tempos para cá, e a agravar-se, sentem-se uns sintomas de esquizofrenia política naquelas hostes!
Ora, veja-se por exemplo o caso do hospital que o governo nos quer levar. O presidente foi fazer presença, qual olívia patroa, nas reuniões com o conselho de administração onde foi favorável à reorganização prejudicial para os interesses dos tomarenses. E depois faz presença, qual olívia costureira, nas manifestações contra a reorganização e o conselho de administração!
É para ficar confuso? Não, estamos em Tomar!
Mais exemplos? Há dias informou o presidente numa reunião de câmara que a ASAE já permitia aceder ao mercado! O presidente não deve saber que o mercado é propriedade do município e por isso ninguém pode impedir de lá ir… O que a ASAE impede é o funcionamento, e quanto a isso, continuamos à espera que a câmara se decida a fazer óbvio: fazer obras simples (que o dinheiro já o gastaram todo em disparates e agora não chega para mais) que permitam que o mercado funcione naquele edifício, como há muito foi proposto pelo PS, e se acabe de vez com a vergonha terceiro mundista que é aquela tenda.

Ora, veja-se o PSD. Não, não é o da Câmara, dizem eles, é ou outro… O PSD de Tomar ganhou a gestão municipal em 1997 e, mais um, menos um, são os mesmos desde então. Os mesmos que escolheram Carlos Carrão para vereador desde essa altura (o autarca há mais tempo no poder em Tomar), Corvêlo de Sousa e o grande coveiro, responsável por toda esta herança, António Paiva.
Pois o PSD, que candidatou Corvêlo a presidente, tudo fez para mandar Corvêlo embora. Agora, tudo fazem para mandar Carrão embora, e vão ver como daqui a uns tempos vão começar a dizer que não têm nada a ver com a Câmara, não têm nada a ver com isto, apareceram por cá agora.
Querem ver que um dia destes o PSD nabantino até vai dizer que não tem nada a ver com os milhões da dívida do município gastos em parques de estacionamento feitos por teimosia e processos pouco claros, gastos em avenças com advogados, em projetos de coisa nenhuma, em obras feitas refeitas e malfeitas, em “boletins municipais” de propaganda, etc, etc?!
O PSD um destes dias vai dizer que não tem nada que ver com os investidores e com os munícipes que têm sido mandados embora para outros concelhos, os primeiros por mau trato, os segundos por falta de oportunidades. Não, o PSD não tem nada a ver com isto, era outro partido!...
Querem ver que ao longo destes anos alguém viu o PSD, fosse em Assembleia, fosse onde fosse, criticar o que estava a ser feito? Não, pelo contrário, sempre apoiaram tudo! Ou seja, em todos estes anos, limitaram-se a fazer presença.

E aquela mais recente manobra do PSD nabantino, qual olívia costureira, em vir agora dizer que quer reunir com os outros partidos, para de forma rápida chegar a consensos para a extinção da freguesia, só porque não quer ser o único a ficar mal na fotografia?! É só artistas!
Isso já nós do PS, que não criámos o problema, andamos a pedir há mais de um ano!
Mas vamos por partes, o governo PSD, qual olívia patroa, decidiu como quis esta lei espúria que só serve para distrair de assuntos mais importantes. O responsável governamental e mentor desta lei da redução das freguesias é Miguel Relvas. O governo exige às Assembleias Municipais que se pronunciem até 28 de Agosto sobre as freguesias a extinguir no seu concelho. O Presidente da Assembleia como primeiro representante do povo deve ser o primeiro a ter opinião. O Presidente da Assembleia em Tomar é Miguel Relvas. Então o PSD de Tomar, em vez de vir fazer número, devia começar por perguntar a Miguel Relvas, que freguesias é que ele quer ver extintas em Tomar! Eles criaram o problema, e agora querem que os outros o resolvam?!
Mas mais, a lei que o PSD inventou também diz que a câmara, se não tomar a iniciativa que leve à deliberação, deve apresentar um parecer (artº 11). O PSD já perguntou ao seu presidente e aos seus vereadores que freguesias querem ver extintas em Tomar?
E tanto, tanto mais, onde explorar esta dualidade do PSD que faz, e o PSD que diz que não faz, que só pode ser novidade para quem não viva cá ou veja o PSD como o clube do seu coração.
Porque para todos os outros, o PSD nabantino não se vai transformar por magia em nada de novo, as pessoas são globalmente as mesmas, a mesma falta de visão, a mesma falta de soluções, a mesma incapacidade para pôr Tomar a andar no caminho do futuro.
O PSD é aquilo que é.

Bom mas, com a diferença de serem cada vez menos, principalmente os jovens porque vão todos embora, os tomarenses também são os mesmos.
Ainda falta um ano, estão quase todos os tomarenses à espera e a queixarem-se. Mas isso diz que não continuarão a votar como se estivessem a apoiar o clube de futebol? Que não continuarão a votar no mais bonito, no melhor falante ou no “sr.doutor”? Ou será que vão finalmente olhar para as ideias e perceber que não basta lamentar-se, que é preciso fazer alguma coisa, nem que seja apenas votar de forma diferente?
Eu, confesso, já não tenho o otimismo de outros tempos. É que queixarem-se e falar mal dos eleitos, ouço realmente muitos a fazê-lo. Só que, nestes que há quinze anos nos levam para o buraco e ainda têm a lata de dizer que não, que eram outros, eu sei que nunca votei. Foi você?



segunda-feira, dezembro 19, 2011

remember

Ainda com os sons e demais sentimentos revivalistas da madrugada deste domingo na memória, nessa grande festa "remember pim-pim", em linha com esse revivalismo e também porque aqui algures se vai timidamente comemorando o sétimo aniversário deste blogue, republico o artigo abaixo.

As fotos do passado sábado no Rio Bar são o que é possível via telemóvel... se clicarem nelas sempre as vêem maiores.
Também não interessava que estivem muito melhores, que isto não é o Big Brother!


"Os trintões nabantinos 
artigo publicado no jornal Cidade de Tomar de 5 de Outubro de 2007


“Ter trinta anos em Portugal” foi o tema de capa e excelente reportagem da revista Visão de 20 de Setembro. Ao ler esse trabalho sobre “o retrato da geração pós-25 de Abril que está a mudar o país”, não sei se por pouco mais de um mês me separar dessa efeméride, dei por mim a pensar e a transpor para a visão nabantina do assunto: como é ter trinta anos no concelho de Tomar?
Nessa reportagem são em primeiro lugar focadas as referências, desde as séries infanto-juvenis como a Abelha Maya, o Tom Sawer ou o excelente Verão Azul (que comemorou inclusive 20 anos no ano transacto), ou o facto de sermos do tempo em que o computador era uma coisa chamada Spectrum e que funcionava a cassetes; e telemóvel, digo eu, só nos filmes do 007.

Sendo certo que esses anos da infância e da adolescência são por norma aqueles que definem a nossa personalidade, os gostos, e muito do tipo de vida que vamos seguir, que referências temos para além dessas cá pelas margens do Nabão? As matinés de Quarta ou Sexta-feira no Pim-Pim ou, naqueles tempos em que eram os de outros concelhos que a Tomar se deslocavam, as noites da Excêntrica que acabavam mesmo bem com um mergulho no Zêzere ainda antes do nascer do sol. Um copo de “Mouchão” fresquinho, que só nos já idos nas cinzas da memória “Passarinhos” é que sabia daquela forma. Enfim, sobra felizmente o Paraíso pouso de todas as gerações, e vêm ainda de parte desse tempo o Casablanca ou o Lá Calha. Bebemos as primeiras imperiais com umas moelas a acompanhar no Noite e Sol, e era ao Texas que íamos comer o bitoque.

Acompanhámos o nascimento e a evolução dos Quinta do Bill, assistimos ao fecho do Cine-Teatro (reaberto já mas onde o cinema já não tem o fulgor desses tempos), onde antes íamos às sessões infantis de domingo de manhã e lembramo-nos do Festival de Cinema que nesses tempos do Vasco Granja na RTP, emprestava a Tomar reconhecimento. Lembramo-nos de andar de barco no rio, jogar à bola no pelado da nabância (não eu, que nunca fui dado a essas artes!); os passeios na mata, e até fazer o percurso de manutenção que em tempos lá existiu. (Quantos tomarenses entram hoje na mata?)
Perdíamos tempo nos snookers da Gualdim Pais ou do Académico, ambos ainda por lá, mas que já não são a mesma coisa porque, como será seguramente para todos os adolescentes, o tal tempo parecia ter outro tempo.
Muito mais poderia ser lembrado e cada um terá as suas memórias, os seus lugares, e a forma como as guarda ou as esquece, é um exercício que a cada um se reserva.

Mas revividas as memórias, que perspectivas, que ambições, que presente e futuro têm os trintões nabantinos? Nós que, talvez mais despertos, talvez menos apegados a um outro passado, vimos crescer os concelhos à nossa volta, vimos essas terras desenvolverem-se, e já pouco chegámos a conhecer o tempo em que Tomar era a referência e o líder incontestado da região. Há no entanto quem não consiga ver ou aceitar que essa é a realidade. Tomar está em degradação, e a continuar o actual rumo só poderá agravar-se.

Ainda este domingo, quando ajudava nas mudanças da minha irmã para a sua casa nova em Abrantes pensava: como se consegue convencer os mais novos a ficar? Todos os dias parte alguém, esta terra envelhece cada vez mais, mas que razões podemos encontrar para mudar isso?
Empregos, difíceis; qualidade de vida, alguma sim, mas cada vez menos, ou cada vez menos tem algo que se destaque doutros locais, e em muitos aspectos já está a perder, e ainda por cima uma cidade bonita não nos mata a fome.

Eu… tenho um gato, mas dizem as estatísticas que uma boa parte dos da minha idade estarão casados e com um filho, mas essas estatísticas também não jogam a favor dos Tomarenses. Se para um é difícil, para dois é-o (obviamente) a dobrar. Onde arranjar uma casa? Construir uma nas aldeias? Mas nos poucos sítios onde é possível, só para a licença, além do que custa demora uns dois anos. Comprar apartamento? Seja novo ou usado, os preços são o que sabemos em Tomar, iguais aos de Lisboa, não falando nos preços da água, do saneamento. É que até os supermercados em Tomar, parecem ter preços acima da média dos outros concelhos!
Além dos poucos que não enxergam a realidade, e dos que a vendo a tentam esconder, há quem ache não ser possível dar volta isto, outros que assim mesmo é que deve ser, que esta deve ser uma terra “pacatinha”, onde deve morar quem paga para ter sossego, quem tem dinheiro para pagar a tarifa de viver numa espécie de museu, que é de facto para onde nos encaminhamos.

Eu acredito em algo distinto, que não precisamos mudar o que somos, nem alterar a nossa identidade, essa marca que ainda faz de Tomar algo diferente, e no entanto encontrarmos formas de poder sobreviver a nos tornarmos uma vilazinha engraçada nos subúrbios de outra coisa qualquer. Acredito que há quem queira investir, assim os deixem; que há quem queira trabalhar, assim lhes dêem oportunidade; que a maioria prefere continuar a viver por cá, assim consiga. Mas para isso é preciso que se assumam responsabilidades, responsabilidades que começam em cada um de nós, que sejamos críticos e interventivos, e que Tomar perca esta característica quase genética de deixar que dois ou três (ou nos últimos tempos um), decidam por todos os outros. O presente e o futuro está nas mãos dos tomarenses, e muito nas mãos desses trintões, é preciso que o assumam e que o exerçam.
Senão, bom, senão os trintões nabantinos terão cada vez menos problemas, porque em verdade serão cada vez mais uma “espécie” em extinção, porque a maioria abandonará Tomar antes de completar essa idade, ficando apenas os que podem e os que como eu têm o seu quê de teimosos.
Estarei errado?"

segunda-feira, maio 30, 2011

a culpa

artigo publicado no jornal Cidade de Tomar de 27 de Junho.
Agora que entrámos em força na campanha eleitoral parece-me que começa a ser evidente a tendência principal, o mote usado pela generalidade dos partidos da oposição. Propostas, ideias, soluções; capacidade de diálogo, de compromisso, a importante capacidade de num momento difícil esbater diferenças e dar mais relevância ao que de comum pode ser encontrado como forma de em conjunto enfrentar os problemas… nada disso, o que interessa é gritar bem alto aquilo que julgam que os portugueses querem ouvir, que as culpas todas passíveis de encontrar no mundo são do PS e que nada querem com o José Sócrates mesmo que, vejam lá bem, os portugueses venham a entender dia 5 de Junho, que é ele e o Partido Socialista quem deve continuar a governar.

Esqueçamos tudo o que fez de bom, esqueçamos o choque tecnológico e as medidas de simplificação administrativa que poupam milhões ao estado e milhares de horas e paciência perdida aos cidadãos;
Esqueçamos o investimento nas energias renováveis que criam postos de trabalho e reduzem a dependência energética do país, logo, também ajudam a atenuar a dívida externa, e que fizeram de nós o líder mundial neste sector, e esqueçamos as 9 barragens em construção e que 45% da electricidade que consumimos é agora produzida em Portugal, ou ainda que somos pioneiros na difusão do carro eléctrico a ponto de termos já várias empresas desse sector a instalarem-se cá;
Esqueçamos todo o investimento na modernização de mais de 100 Escolas Secundárias e na construção de centenas de novos Centros Escolares e todo o demais investimento na educação, como o aumento das crianças abrangidas pelo Pré-escolar ou com outras ofertas pedagógicas como o Inglês logo no 1ºCiclo, ou ainda a maior abrangência da Acção Social Escolar – ou mesmo os quase 2 milhões de computadores distribuídos;
Esqueçamos as centenas de novas Unidades de Saúde Familiar, de Unidades de Cuidados na Comunidade, os Novos Centros Hospitalares já construídos ou em construção; a redução dos inscritos em espera para as cirurgias ou outras medidas na área da Saúde como o cheque dentista;
Esqueçamos os sucessos do Tratado de Lisboa, da Cimeira da Nato, e das Cimeiras com África e com o Brasil, ou a escolha de Portugal para membro do Conselho de Segurança das Nações Unidas;
Esqueçamos a rede de Cuidados Continuados, as mais de 400 novas creches, os quase 1000 novos equipamentos sociais, os mais de 50000 lugares em lares ou os novos Centros de Dia, ou os quase 300000 idosos com pensões mais baixas que recebem o Completamento Social criado pelo Governo;
Esqueçamos coisas tão díspares como o maior aumento de sempre do salário mínimo, todo o investimento no Turismo, o passarmos a ser o país da Europa com maior aumento da investigação e desenvolvimento científico, as parcerias com empresas e instituições internacionais, o aumento em 15% de inscritos no Ensino Superior;
Esqueçamos o aumento de quase 16% das exportações, da extinção de 25% dos organismos públicos e cargos de dirigentes, bem como o fim de muitas das regalias de detentores de cargos políticos;
Esqueçamos as questões das Igualdades e Garantias individuais como a despenalização da IVG ou a reforma da Lei da Nacionalidade;
Esqueçamos todos estes FACTOS, esqueçamos tudo isso e centremo-nos nas culpas!

Sim, é evidente nesta campanha que a tendência de discurso de todos os políticos e mesmo meros comentadores adversários do PS é o de proclamar que todas as culpas são, precisamente do PS e de Sócrates.
Sim, o país produz pouco, gasta muito, há décadas que gasta acima das suas possibilidades... a culpa é do PS e de Sócrates!
A dívida externa do país aumentou, a fatia maior da dívida do país é a das empresas e das famílias e das suas dívidas individuais – sim, porque a malta endivida-se até para comprar televisões e férias no estrangeiro mas a culpa é... do PS e de Sócrates!
Se o ex-futuro ministro das Finanças de Passos Coelho, Eduardo Catroga, desce o discurso de campanha ao nível do debate púbico a ponto de ser obrigado a ir de férias, ou se Passos Coelho insulta formandos e formadores do programa Novas Oportunidades usando a mesma capacidade crítica de quem avalia o comportamento do árbitro num jogo de futebol, e se tentando emendar o discurso voltou a insultar o mais de 1Milhão que já frequentou o programa… ou se os portugueses não acreditam em Passos Coelho e na equipa que não tem, não lhe reconhecem credibilidade ou confiança, não vêem nele uma alternativa… a culpa só pode ser do PS e de Sócrates!
Mas não fiquemos por aqui, porque como dizem os do PSD, CDS, BE e PCP, não há nenhuma crise global, todas as culpas são do Governo do PS e de Sócrates. Logo, a situação na Grécia que levou à intervenção do FMI e mesmo assim aquilo não vai ao sítio e o FMI vai ter de lá voltar porque... a culpa é do PS e do Sócrates.
Na Irlanda a Banca faliu e levou consigo o país para o buraco, mas claro, a culpa é do PS e de Sócrates.
A Inglaterra tem uma dívida externa muito maior que a portuguesa e onde se prevê por exemplo, o despedimento de milhares de funcionários públicos e há manifestações permanentes dos cidadãos – naturalmente porque a culpa é do PS e de Sócrates.
A Itália tem uma dívida ainda maior que a de Inglaterra, mas lá ninguém se interessa com isso porque as crises são com os escândalos sexuais do Berlusconi - e de quem é a culpa?, do PS e do Sócrates.
Ali ao lado em Espanha a taxa de desemprego chegou aos 25% - 5 milhões de desempregados! E havendo manifestações lá por todo lado o que dizem os manifestantes? Que a culpa é do PS e do Sócrates!
A Bélgica está numa crise política profunda sem Governo eleito há um ano… por culpa do PS e do Sócrates.
Se até em Cuba, aquele reduto do comunismo já quase único no mundo, o Governo despede 1 Milhão de funcionários Públicos… pois a culpa é do PS e de Sócrates.
Se o Kadafi mata o próprio povo, e em Jerusalém os judeus e os palestinianos não se entendem; no Egipto, na Síria, no Iémen e por esse mundo fora anda tudo às avessas... a culpa claro está, vocês sabem, é do Sócrates!
Até aqui em Tomar, com o desastre da governação dos últimos mais de dez anos, com a dívida de 35 milhões e a aumentar, com esta Câmara que é uma lástima, a culpa será de quem? Ora pois claro, repitam lá comigo que vocês sabem - é do PS e do Sócrates!
Ora, se Judas traiu, Pilatos lavou as mãos e Pedro três vezes negou; se chove quando devia fazer sol e quando está sol devia chover; se o guarda-redes era um frangueiro e o Benfica não ganhou o campeonato… a culpa é do Sócrates, Sócrates, Sócrates!

E se você caro leitor, não perceber o ironia deste texto, de quem é que há-de ser culpa? Do PS e de Sócrates pois claro.
E se dia 5 de Junho não for votar e deixar que outros decidam por si, e depois andar a reclamar à mesma, que são todos iguais e nenhum vale nada, já sabe de quem é a culpa não sabe?

segunda-feira, março 21, 2011

A velhinha escola

(artigo publicado no jornal Cidade de Tomar de 18 de Março)

Na passada sexta-feira dia 11 foi inaugurado no nosso concelho o novo centro-escolar da freguesia de Casais, situado na Venda-Nova, com isso determinando o encerramento de todas as escolas e jardins da freguesia. Para já, que outras se seguem.
Assim fechou também a minha velhinha escola, a Primária da Venda Nova. A velhinha escola primária onde estudaram também os meus pais, e igualmente os meus avós (os que estudaram).

É um ciclo de memórias que também se encerram naquele espaço. Parece que foi há muito tempo mas passaram pouco mais de vinte anos, e ainda assim os tempos eram bem diferentes. A escola ficava a uns bons 2,5km da minha casa e esse era um caminho feito a pé todos os dias, como o faziam também a generalidade dos outros colegas.
Todos os dias não, numa determinada altura, trabalhava o meu pai na Fábrica de Papel de Porto Cavaleiros e nos dias em que entrava no turno das 8 deixava-me primeiro na escola, o que significava nesses dias, às vezes ainda noite escura de Inverno, que por um bom período eu tinha uma escola só minha, enquanto não chegasse a Dona Henriqueta a funcionária, ou algum outro aluno.
Outros dias, apanhava-me o Faustino que comigo se cruzava no seu caminho rumo ao trabalho, e lá ia eu pendurado de cabelos ao vento na sua mota que me emprestava a primeira aventura do dia.
Se a minha ida pela manhã para a escola era normalmente solitária, o regresso da mesma, depois da uma da tarde era colectiva, e naturalmente carregada de brincadeira e muito disparate. Do “apanhar” laranjas, tangerinas, ou uvas nos quintais de caminho (como se não tivéssemos todos tudo isso em casa) aos grandes banquetes que fazíamos com as minúsculas raízes dumas também pequenas flores campestres que surgem na Primavera, que arrancávamos do chão e de que agora não recordo o nome.
Das coisas mais pacíficas, como brincar às estátuas junto à capela do Algaz, o que nos fazia a todos atrasar para o almoço e pelo menos eu, ouvir quase todos dias o mesmo ralhete; às mais arriscadas como tentar entrar nas casas abandonadas do percurso em busca de mistérios e fantasmas; ou o passarmos debaixo da ponte do ribeiro do Algaz por vezes com corrente assinalável para o nosso tamanho de crianças apenas pelo prazer de nos molharmos; ou ainda o recorrente atirar pedras tentando acertar nos fios de electricidade, quando a única coisa que me lembro de se ter acertado alguma vez, foi o Luís no meu sobrolho após isso aberto e ensanguentado.

A escola em si é o que lá está ainda, no tempo com menos um ou dois telheiros. Só com duas salas, por isso funcionavam dois anos de manhã e dois de tarde em turmas bem mais numerosas que actualmente. Talvez por isso, a minha professora Joaquina me punha a um canto a perguntar a tabuada e outras coisas que já não me lembro, a alguns outros colegas. E por isso às vezes digo que comecei a ser professor ainda na primária.
A escola da Venda Nova, junto à estrada nacional 110, sempre foi um problema de segurança rodoviária, particularmente quando lá não existiam semáforos, o alcatrão era pior e o respeito pelas regras também. Do acidente que a minha mãe, eu e a minha irmã tivemos, no velhinho Corola que foi para a sucata, nesse dia em que a minha mãe atravessou do Jardim de Infância da Arroteia (inaugurado um ano antes e também agora encerrado) para a Escola Primária para me matricular na 1ª classe; ou do Paulo que foi atropelado por um camião, entre muitos outros.
Dos meus antigos colegas muitos nunca mais nada soube, o que significa que a maioria vive fora do concelho, o que bem ilustra a nossa realidade. Ou outros fora do país, como a Sónia que vive nos EUA, a Brígida na Holanda, a Susana na Suíça. Alguns não recordo já o nome, ou sequer o rosto, mas fiquei contente de ver uma ou duas dessas caras na inauguração desta nova escola, agora ali a acompanhar os seus filhos.

Se invoco estas minhas memórias, seguramente semelhantes às memórias de muitos, é para contrariar aquela ideia tão portuguesa de que as coisas não evoluem ou aquele desabafar que “antigamente é que estávamos bem”. Nenhuma análise séria pode dizer isso. Hoje vivemos muito melhor.
Não há praticamente abandono escolar no nosso país; o trabalho infantil, ainda uma realidade há vinte anos atrás desapareceu praticamente. Hoje quase ninguém vai a pé para a escola, as escolas têm melhores condições, e todos os alunos do país, por decisão deste Governo, têm direito à refeição na escola, entre tanto mais.
É verdade que há problemas a montante, há por exemplo ainda miúdos que chegam à escola com fome, sou professor, sei-o bem, mas isso não pode ser comparado com o que se passava nesse tempo.
E desculpem lá nesta matéria elogiar o Governo, bem sei que nos dias que correm é pouco popular fazê-lo, é mais fácil entrar na demagogia, mas e as condições das escolas? Nunca se fez tanto como actualmente no investimento nas condições de instalações e equipamentos, além do claro e exemplar investimento na tecnologia.
Tomar é um bom exemplo. Deste centro escolar agora inaugurado à Escola D. Nuno Álvares, ou ainda à magnífica Jácome Ratton, passando-se o mesmo por todo o país. A ponto de, noutro jeito de ser tão português, as críticas de alguns serem agora o de achar excessivo o que está a ser feito. O português nunca está contente! Já ao Marquês de Pombal acusaram de fazer ruas demasiado largas…

domingo, fevereiro 20, 2011

Todos dizem que ninguém fala!

artigo publicado no jornal Cidade de Tomar de 18 de Fevereiro

A sociedade portuguesa é rica em expressões muito espirituosas, umas vezes saudozistas, às vezes contraditórias, outras que simplesmente não querem dizer nada. Já Sérgio Godinho diz na música: “só neste país é que se diz só neste país”…
É exemplo aquela de “no meu tempo” ou a de sobre alguém e o mau desempenho que tem numa determinada função dizer-se “mas é boa pessoa” como se isso desculpasse alguma coisa – Esta última é mesmo das muito usadas cá pelas margens do Nabão.
Outra das por cá nesta terra amorfa, muito característica e sobre a qual hoje escrevo é aquela do género “ninguém fala disto!”.

Ainda no fim-de-semana que passou ouvia alguém na rádio Hertz dizer, “ninguém fala do mercado, ninguém fala dos clientes que o mercado está a perder”, quando tantos, e o PS e eu pessoalmente o andamos a dizer há anos. Afirmámo-lo muitas vezes inclusive quando a pessoa que o dizia agora na rádio, teve responsabilidades públicas sobre esse assunto enquanto vereador, e tomou algumas medidas sobre o mesmo que considero prejudiciais. E não venham dizer, sobre o vergonhoso estado actual, que nunca ninguém disse que aquela tenda não resolve coisa nenhuma, e que a Câmara não está empenhada em verdadeiramente resolver o assunto!
Também sobre o processo “Parque T”, a péssima decisão política e o rombo financeiro e o que significa para o município, li e ouvi dizer noutros meandros que “ah e tal… ao longo dos anos ninguém falou do assunto”, quando o PS e eu pessoalmente, e muitos outros, falamos e escrevemos há uma década sobre aquela monstruosidade! Neste mandato por exemplo, em que sou deputado municipal, não houve uma reunião de Assembleia Municipal em que não falasse desse danoso disparate.

É um problema preocupante este “ninguém falar das coisas”. Faz-me lembrar aquela do Presidente de Câmara dizer em reunião que não sabia que o açude de pedra está vedado ao público. Como se fosse possível não saber, querem ver que ninguém, por exemplo eu, falou nisso nos últimos anos?
É que a ser assim, vejamos, um dia destes quando for mais do que já é, consensual que a ponte do flecheiro não resolveu nenhum problema real, mas representou sim uma oportunidade perdida pois devia ter sido construída mais a sul, e perdida também porque o dinheiro ali gasto já não será gasto noutro local (mas ainda o estamos a pagar), também vão dizer que nunca ninguém falou do assunto!
Um dia destes também vão dizer que ninguém avisou que o complexo a construir (ou talvez não, que o mais certo é não haver dinheiro) na Levada, nos antigos lagares del-rei e antiga moagem da Mendes Godinho, tal como está planeado (na prática, não há planeamento nenhum), vai ser mais um elefante branco com pouco de útil e muito de gasto.

Querem ver que nunca ninguém disse que o Pavilhão Municipal, construído como foi com as características a vários níveis más que tem e naquele local, não servia para nada e era uma gasto inútil de dinheiro que nada acrescentou à cidade e ao concelho?
Um dia destes vão dizer que ninguém falou sobre o problema do antigo hospital militar anexo ao Convento de Cristo que continua sem solução, ou que nunca ninguém falou da questão do Convento de Santa Iria (até porque ninguém vê aquilo a cair) e que nunca ninguém, por exemplo eu, disse que aquilo que a Câmara julga poder ganhar com a concessão daquele espaço é totalmente irrealista e nunca vai concretizado, porque nenhum privado dá esse dinheiro por aquele espaço.
Naturalmente nunca ninguém disse que estamos todos os dias a perder competitividade para outros concelhos, ou que a generalidade dos jovens está há vários anos a deixar o concelho por falta de oportunidades. Nunca ninguém disse claro, que por cá não há desenvolvimento económico e que a autarquia há vários anos complica mais do que ajuda. Nunca ninguém disse que não há nenhum plano estratégico em prática ou sequer em estudo para apontar o futuro de Tomar para um caminho definido; tal como nunca ninguém disse que as sucessivas câmaras têm gasto rios de dinheiro em obras inúteis e mal planeadas, sem visão de conjunto ou eficácia.

E quando, e se, o Presidente de Câmara levar à Assembleia Municipal para aprovação o empréstimo de milhões que necessita para pagar o acordo que ele e o PSD aprovaram com a empresa Parque T, e a Assembleia eventualmente o reprovar, também estou para ver se vai dizer que nunca ninguém o avisou que não é assim que se tratam os assuntos, tanto na forma como devia dialogar e trabalhar com as demais forças políticas, em particular com o PS a quem o PSD convidou para uma coligação que deveria ser de trabalho; e na forma como normalmente tratam a Assembleia Municipal, a que se habituaram ser uma simples caixa de ressonância obediente do que é decidido em Câmara, quando afinal é a Câmara que responde perante a Assembleia e precisa da aprovação desta nas matérias mais relevantes, e particularmente nas de carácter financeiro.
Agora até Carlos Carrão, vice-presidente da Câmara e a pessoa que há mais tempo lá está, já diz publicamente que falta estratégia e planeamento e mais não sei o quê… então mas querem ver que só agora descobriu isso, e que nunca ninguém o disse antes?!
Um dia destes quando for, ainda mais, consensual que António Paiva foi um péssimo presidente de câmara, com uma actuação extremamente lesiva para o concelho, com anuência quase total do PSD e dos cidadãos que neles votaram, vão dizer que também nunca ninguém o disse. Ou quando se perceber que esta Câmara, contra tudo o que seria expectável pois era à partida difícil, consegue ainda ser pior, também dirão que nunca ninguém o disse? - eu sei, enquanto presidente do PS tenho algumas responsabilidades nisso, mas já lá vamos que Roma e Pavia não se fizeram num dia, e o desastre de Paiva e do PSD não se corrigem num ano, vão demorar muitos!

É que não posso esquecer a generalidade dos cidadãos, a sua maioria, quando sistematicamente ao longo dos anos se queixam dos actores na Câmara, queixam-se das decisões, queixam-se do PSD enquanto partido que desde 1997 gere a autarquia, mas deram-lhes três maiorias absolutas e nas últimas eleições, ainda que sem maioria lhes deram novamente a vitória. Ou seja, apesar de tudo continuam a atribuir aos mesmos a responsabilidade de gerir o concelho, mas, veja-se lá, continuam a queixar-se!
De forma que eu acho urgente definirmos rapidamente uma acção popular que decida de vez, e apesar de “serem todos boas pessoas”, qual é afinal o nosso problema comunitário: será que somos todos surdos, ou temos todos memória curta?
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segunda-feira, dezembro 20, 2010

Aos outros e dos outros

artigo publicado no jornal Cidade de Tomar de 17 de Dezembro

“Qualquer um pode tomar o leme quando o mar está calmo.”
Públio Siro, poeta do império romano

A época festiva que vai chegando, está para muitas famílias no nosso concelho (e em Ferreira do Zêzere e na Sertã) definitivamente marcada pela calamidade. Foram, só em Tomar 20 kms, 400 casas, e muito mais pessoas afectadas material, física e psicologicamente pelo tornado que no dia 7 por aqui passou. Casas umas sem telhado, outras sem janelas ou portas, outras onde as mobílias desapareceram, outras simplesmente uma amálgama de restos; carros atingidos com detritos, árvores arrancadas ou partidas, torres de alta tensão, postes, muros, barracões… enfim, “tudo o vento levou”, e no epicentro mediático um jardim-escola com 140 miúdos cujas educadoras e auxiliares passaram a ser para mim, e seguramente para a generalidade dos outros professores do nosso país, heroínas.
Certamente temos todos, ou pelo menos nós os que não fomos directamente afectados, de concordar que apesar de tudo houve uma pontinha de sorte. Não houve vítimas mortais, e mesmo a dimensão dos feridos quando comparada com os números da tormenta é reduzido. Não é difícil para ninguém imaginar que se o percurso do tornado fosse um pouco mais a sul, atravessando a cidade, a situação até nos estragos materiais seria certamente diferente.

Voltando ao concreto, a primeira coisa que se constata não é novidade. Nestas situações drásticas revela-se normalmente o melhor e o pior do ser humano – o melhor, aqueles que logo acorrem altruisticamente para prestar auxílio; e o pior, os que vão como nos acidentes na estrada abrandar para ver, ou seja, armados em mirones com máquinas fotográficas e tudo, vão encher de carros e pessoas os locais onde o que é mesmo preciso é fluidez e capacidade de mobilidade; vão egoisticamente porque para satisfazer a sua curiosidade mórbida, indo além do mais atrapalhar quem está a trabalhar ou quem precisa de auxílio.
Nestes momentos de ocorrências extremas pedimos (quase) todos o que deve ser pedido, que assumam as suas responsabilidades nas operações quem as tem, e que ajam as instituições públicas nos apoios posteriores a ser prestados, com a capacidade e agilidade equivalente à necessidade.

Não há contudo, é preciso dizê-lo com responsabilidade, sistema que numa situação destas não tenha falhas, aqui ou em qualquer parte do mundo. Não podemos ter recursos infinitos, não se podem ter meios materiais e humanos permanentemente ao dispor a pensar numa situação extraordinária que possa acontecer. Não há impostos que paguem isso, e mesmo que houvesse haveria sempre lacunas. Não é possível ter um carro de bombeiros, uma ambulância e um agente de polícia ao pé de cada casa. Portanto, falhas terá havido com certeza, mas é preciso dizer que genericamente as coisas correram bem, os profissionais e os responsáveis estiveram à altura do momento difícil.

Apesar disso já se levantaram as críticas, umas naturalmente compreensíveis, porque vindas de quem possa não ter recebido ajuda imediata; mas outras lamentáveis, vindas de quem “ouviu umas bocas”, de quem julga ser dono do conhecimento, ou até mesmo muitas baseadas em histórias mal contadas, como aquela de dizer que os militares não ajudaram porque a câmara recusou – críticas que além do mais mostram que quem as profere nada sabe da forma como funciona o sistema de protecção civil, como são as regras estabelecidas entre entidades, ou em que circunstâncias actua o exército. O que não quer dizer que eu não ache que o exército devia ter auxiliado, não se pode é dizer que a culpa disso é da câmara.

O pior das críticas acaba por ser quando elas vêm de quem tem mais responsabilidade. Como aquele autarca sempre pródigo nas aparições para a comunicação social, que no próprio dia começou a criticar a câmara e a protecção civil por não terem ido ao local, esquecendo que os bombeiros fazem parte da protecção civil, e que ele próprio além de responsável político, é enquanto presidente de junta também elemento do sistema de protecção civil.
E depois há também os partidos e forças políticas que se põem a fazer comunicados e a anunciar reuniões e mais não sei o quê. Tudo isso se resume numa palavra: Demagogia. Parece que a alguns políticos ainda não foi dado a perceber que vivemos num tempo novo, as pessoas estão fartos de teatro desempenhado por maus actores – deixemo-nos de fitas, questões como a catástrofe que ocorreu na passada semana não podem servir para politiquice!
É nos momentos difíceis que melhor se vê o carácter e a capacidade das pessoas, e a seriedade na política é tratar os assuntos com sentido de dever, e nestes momentos é preciso deixar trabalhar quem sabe e tem essa obrigação. Há regras estipuladas, há estruturas de comando, há pessoas experimentadas. Aquilo que podemos fazer (e devemos!) é individualmente, segundo a consciência e a disponibilidade de cada um, apresentarmo-nos para ajudar se for preciso, sem pretensões de sabermos mais, sem querer dar “bitaites” mas numa postura franca de, com voluntariedade e solidariedade, querermos ajudar.

Até porque é impossível resolver uma situação destas sem contar com a solidariedade de muitos, sem a mobilização dos civis, e se calhar menos do que desejável, mas houve-a apesar de tudo. Ora, estamos em Dezembro, o mês do Natal, celebração que costuma dizer-se, é a época em que mais se sente o espírito de amizade, solidariedade, entre-ajuda, enfim, quando o ser humano é efectivamente mais humano.
Bom, em Tomar esse espírito foi posto à prova, muitos foram os que se entregaram à tarefa e deram do seu tempo e do seu suor para ajudar outros, em boa parte das vezes sem sequer os conhecer. É bom sinal que muitos fossem jovens. E é preciso agradecer particularmente aos voluntários que vieram de outros locais do país, e segundo sei até do estrangeiro. Claro, a grande maioria dos 40000 tomarenses nada fez, foi como se fosse apenas mais uma notícia no telejornal de mais uma coisa qualquer acontecida algures noutro sítio do mundo.

Pois, é muito fácil falar de espírito natalício quando isso trata de comprar umas prendas, ou continua a ser ainda assim fácil falar de solidariedade, quando se trata de dar um saco de arroz à saída do supermercado, ou uns trocos quando vão pedir lá a casa. Mas dar do seu tempo… ou do seu esforço… pois, é mais difícil.
Enfim, há ainda trabalho a fazer, mas se lições houverem já a retirar, entre seguramente uma ou outra falha do sistema a corrigir, essas lições devem começar em cada um de nós de forma muito simples. Primeiro que as “coisas” não acontecem sempre aos outros e nunca se sabe quando precisamos nós de ajuda; e depois, que a responsabilidade, a indisponibilidade, as falhas não estão sempre nos outros, começam sim em nós. Quando começamos a criticar, comecemos por nos olhar ao espelho. Sendo a época propícia, parece-me um excelente exercício para descobrir que valores residem afinal em cada um de nós.
E com este registo, que tenham todos o melhor Natal possível.

domingo, outubro 10, 2010

Res Publica

(artigo publicado a 8 do presente no jornal Cidade de Tomar. Embora escrito há mais tempo.)


Com influência anterior da Grécia antiga, vem dos romanos a expressão que dá título a este texto. Quer dizer algo como “coisa pública” ou “coisa do povo” e anda normalmente de mãos dadas com outro termo muito importante: a Democracia.
Em Portugal, a Implantação da República cujo centenário comemoramos no próximo dia 5, resultou do golpe de estado organizado pelo Partido Republicano Português com forte influência e participação de outras forças progressistas como a Maçonaria ou a Carbonária, pondo assim fim ao sistema de Monarquia Constitucional então existente.
Além de razões ideológicas, várias eram as questões políticas e da governação que impeliram as vontades dos revolucionários e fizeram colapsar esse regime. A subjugação do país aos interesses coloniais britânicos (a célebre questão do “mapa cor de rosa”, que veio a dar origem ao poema A Portuguesa, depois usado em parte para o hino da República); os gastos elevados da família real, o poder da igreja, a instabilidade política e social com a sucessão de governos fracos e que viria a findar na breve ditadura de João Franco que durou quase até ao fim da monarquia.
A República apresentava-se então como o regime que seria capaz de voltar a dar a Portugal algum do prestígio há muito perdido e um caminho de progresso que até então fugia ao país. É dificilmente contestável para quem analise a história, o facto de que foram as últimas décadas da monarquia, a par com os mais recentes quase cinquenta anos do regime salazarista, aqueles que mais atrasaram o país e o afastaram da frente de desenvolvimento europeu.
A passagem da monarquia para a República marca uma mudança essencial na filosofia da existência do ser humano: a passagem da condição de súbdito de alguém, tendo esse alguém adquirido essa condição de soberano apenas por ter “nascido rei”, para a condição de cidadão igual aos demais perante o Estado, em direitos e deveres, em liberdades e garantias – a filosofia difundida com a revolução francesa, em que todos os homens nascem livres e iguais. É verdade que esse caminho não foi imediato, várias têm sido as conquistas ao longo dos anos, algumas só já nos fins do século 20: a igualdade de género, por exemplo nas questões laborais ou mesmo entre cônjuges; a universalidade do direito de voto, a laicização do Estado.
E esse é um caminho em permanente construção, tal como a Liberdade não pode ser nunca entendida como uma verdade adquirida, mas como uma conquista que permanentemente deve ser defendida. Especialmente no que toca aos direitos e garantias de grupos minoritários, sempre mais difíceis de transmitir à maioria os cidadãos e que a todo o momento vão sendo alargados. Basta lembrar por exemplo, que só recentemente todos os cidadãos independentemente da sua orientação sexual, passaram a ser iguais perante a Lei no que toca ao casamento. Ou que para ter direito ao divórcio, basta que um dos cônjuges o deseje – o que a mim sempre me pareceu evidente, mas para a Lei não era.
É por isso e mais que todos sabemos ou deveríamos saber, que nos nossos 100 anos de República nem todos foram verdadeiramente de Democracia, nem todos foram de progresso. Foram conturbados os primeiros anos do século 20 português, também influenciados pelo que pelo mundo se passou: as guerras mundiais; a grave crise económica e social de 1929 (a Grande Depressão), a maior até à que agora vivemos; como foram conturbados os primeiros anos do pós 25 de Abril, especialmente durante o PREC. E temos de recordar que metade do século republicano que agora comemoramos foram vividos numa espécie de ditadura – e digo “espécie” porque para se fazer uma avaliação justa não poderemos dizer que tudo foi mau, admitindo que ao menos nos primeiros anos da governação de Salazar houve aspectos positivos, na estabilização económica do país por exemplo.
A centenária República do nosso já quase milenar país, esteve assim longe de ser perfeita. Mas é verdade que muito se passou nestes 100 anos e devemos lembrá-lo. No acesso universal à educação, à saúde, aos direitos laborais, no direito à reforma, no direito ao ócio ou lazer, no acesso à cultura, na liberdade religiosa, na qualidade de vida em geral. Claro que poderá ter havido alguns exageros, a todo o momento é preciso criar equilíbrios no sistema, é difícil pensar em alguns direitos se não houver dinheiro para comer. O Estado somos todos.
Talvez por isso, talvez por nada, os pessimistas do costume e um certo negativismo português dirá: isto está é cada vez pior, ganhamos mal, trabalhamos muito, reformamo-nos tarde, etc. Mas qualquer análise isenta mostrará que não é assim, basta a qualquer um de nós olhar à volta e reflectir, pensar como viviam os nossos pais, os nossos avós. Como eram as suas casas e o que lá tinham, o que comiam, o que vestiam, o que sabiam do mundo; quantas crianças morriam à nascença, quantos morriam por doenças estúpidas, quantos morriam em guerras que não entendiam; qual era a esperança média de vida; como eram as suas profissões, quantas horas trabalhavam, o que faziam nos (poucos) tempos livres, e por aí fora.
Há evidentemente muito a fazer, como redescobrir o papel de Portugal no mundo. Abandonar esta posição de periferia em que sistematicamente nos colocamos – durante a ditadura “orgulhosamente sós” a querer ser grandes com as colónias esquecendo o resto do mundo; depois de 1974 a querer muito ser europeus e só para aí voltados.
Esquecemos tantas vezes as lições da história, por exemplo que só fomos minimamente “grandes” quando fomos um dos centros do mundo, quando no tempo áureo das descobertas éramos porto de chegadas e partidas. Só o movimento produz algo. O mesmo podemos aplicar a qualquer região, cidade, aldeia. Como a Tomar, que por várias razões perdeu a sua centralidade e chegou ao século 21 numa espécie de periferia onde as pessoas se deslocam como a um museu. Felizmente parecem começar a existir a vários níveis, ainda ténues é certo, mas alguns sinais de mudança. Ou ao menos a consciência da necessidade de mudar. E assim é também no país, que não quer deixar de ser europeu, mas que cada vez mais tenta ser uma porta da velha Europa para África e para a América brasileira, tirando partido deste grande espaço mundial que é o da Língua Portuguesa.
Por tanto mais, a República deve ser comemorada, estimulada. “E pur si mouve”, diria Galileu, “e no entanto ela move-se”. Assim é com a nossa sociedade, lentamente, umas vezes mais que outras, mas o progresso existe.
Será sempre preciso defender a República, a Democracia, a Liberdade. Por vezes de ameaças veladas, mascaradas, como os que querem transformar direitos que devem ser de todos, em regalias que variam consoante a conta bancária. Basta ver o que alguns agora propõem para alterações na nossa lei fundamental, a Constituição.
Ou como algumas tendências demagógicas baseadas em populismo boçal, que pretendem fazer esquecer coisas essenciais: em Democracia somos governados por representantes eleitos – não por técnicos, não por conselhos de administração, não por homens providenciais, não por regras de mercados desregulados.
A todo o momento, sublinho, deve cada um de nós, no seio das nossas comunidades, nos nossos locais de trabalho, estimular a República e a Democracia, e só assim manteremos vivos e actuantes os ideais de 5 de Outubro de 1910, os da Liberdade, da Igualdade, da Fraternidade, na demanda do timbre da Justiça e da Verdade, da Honra e do Progresso. E sonhando com o futuro, sempre, porque “sempre que o Homem sonha, o mundo pula e avança”.

sábado, agosto 28, 2010

Da aldeia, Bons Sons

artigo publicado no jornal Cidade de Tomar de 26 de Agosto

Fugindo à banalidade que faz escola, procurando o genuíno e não se furtando ao trabalho, há seis anos atrás Cem Soldos brindou-nos com o primeiro Festival (bienal) Bons Sons. Um sucesso desde a primeira hora.
E, em tempos onde só a crítica fácil, negativa, tantas vezes destrutiva, pejorativa, parece importar a dizentes e a ouvintes, é indispensável elogiar quem faz algo novo, quem faz por gosto quem faz, não em espera do retorno pessoal mas da alegria colectiva de construir algo – um prazer que do “produto acabado da sociedade de consumo imediato” poucos têm a felicidade de conhecer.
É por isso que o Sport Clube Operário de Cem Soldos não é uma associação como a maioria infelizmente se está a tornar, não é um mero prestador de serviços, não é um local onde se labora em função do ordenado, nem eternamente à espera do subsídio público sem o qual o trabalho não aparece. O SCOCS é uma daquelas boas associações que ainda fazem jus ao nome, e onde o espírito associativo se congrega ao espírito jovem da iniciativa que nasce da própria aldeia e das suas gentes. E é assim, que uma aldeia e uma “associação de aldeia” mostram como se faz a muita cidade e a muita gente que apenas procura protagonismo e nem para isso tem jeito; mostra a quem se limita a copiar sem chama o que outros já fazem melhor; ou a quem apenas produz receitas antigas e falidas que já ninguém quer consumir.
Nos Bons Sons toda uma aldeia se une e se coordena para que, tal como nos convidam no slogan do evento, somados a possamos ir viver. E conseguem-no. Durante três dias, jovens e menos jovens, residentes e forasteiros, enchem Cem Soldos de um colorido castiço, como numa alegria contagiante e um comunitário inebriante olvidar do tempo que corre lá fora, que não é possível imitar noutro local e não seguramente numa cidade, onde são muito mais os que criticam do que os que têm vontade de fazer alguma coisa.

E aqui merece umas linhas (além da Junta de Freguesia, nas suas mais moderadas capacidades) a Câmara Municipal, em particular os serviços de cultura e turismo, por ter finalmente, nesta terceira edição, apoiado condignamente este evento que tem evidentemente um grande potencial turístico, como foi visível no número de pessoas que circulavam pela cidade facilmente identificáveis pelas pulseiras do Festival, entre mais enchendo restaurantes; e pela imensa difusão que esta edição alcançou nacionalmente antes e após o evento – E como é bom ouvir falar de Tomar em órgãos sociais nacionais sem ser por maus motivos!
Apoiar com estratégia, com objectivos, destrinçando o trigo do joio, encorajando quem procura a diferenciação positiva, a inovação, a criação de eventos ímpares, quem faz com qualidade e com capacidade de desenvolvimento da comunidade, deve ser o papel da autarquia em especial quando as condições económicas não são favoráveis, e quando a racionalidade e eficiência do uso dos dinheiros públicos devem ser exemplarmente rigorosas (E nos últimos anos em Tomar foi tudo menos isso!).
Como bem disse Luís Ferreira (o mestre obreiro da organização) ao jornal 2 da RTP algures durante a semana que antecedeu, são estes eventos promotores de envolvimento e desenvolvimento local, capacitadores dessas comunidades. E a verdade é que, de mansinho, sem bajulices ou pretensiosismos, chegou-nos de Cem Soldos aquele que é já o maior evento do concelho a seguir à Festa dos Tabuleiros. Em envolvimento de cidadãos, em público, em projecção do concelho. E só o pode negar quem lá não esteve, ou os mesmos que negam que Tomar já não é o que foi, que perdeu protagonismo, que perdeu liderança, que perde todos os dias em muitas matérias para vários concelhos da região, e que muito raramente já, consegue aparecer no mapa das notícias relevantes.
O Festival estava tão bom que nem a ASAE quis faltar (todos percebemos, quando alguém de fora descobre o caminho para Tomar não quer outra coisa!...). Pronto, e fez muito bem que assim o que comemos e bebemos tinha “qualidade certificada”!

Um parágrafo para os Drama&Beiço, o jovem grupo que representou Tomar no cartaz do evento, e que ao início da tarde de domingo no seu estilo bem disposto electrizaram os ouvintes e dançantes com os sons ecléticos que do leste às arábias, surpreendem quem pela primeira vez escuta e renovam o feitiço dos que já esperam o que ouvem. Com trabalho e perseverança poderão ser uma grande banda, também aqui, com o toque da singularidade e do autêntico.

Pelo excelente cartaz que “encheu casa” em todos os palcos, pelo trabalho motivado e profícuo dos organizadores em particular dos mais jovens; pela abertura e disponibilidade dos habitantes, em particular dos mais seniores à multiculturalidade e proveniência e até mesmo alguma excentricidade dos festivaleiros; pelo excelente trabalho de promoção; pelo que contribuíram para algum dinamismo da cidade no fim-de-semana; pela receptividade e uma muito “boa onda” que só pode deixar nos visitantes vontade de voltar, está de parabéns o SCOCS, os seus dirigentes e obreiros, e a aldeia de Cem Soldos.
Será difícil fazer melhor, e como será possível fazer crescer o evento, certamente uma questão a debater pela associação nos próximos tempos, mas o importante é dizer: Está bom, e queremos mais!