segunda-feira, dezembro 20, 2010

Aos outros e dos outros

artigo publicado no jornal Cidade de Tomar de 17 de Dezembro

“Qualquer um pode tomar o leme quando o mar está calmo.”
Públio Siro, poeta do império romano

A época festiva que vai chegando, está para muitas famílias no nosso concelho (e em Ferreira do Zêzere e na Sertã) definitivamente marcada pela calamidade. Foram, só em Tomar 20 kms, 400 casas, e muito mais pessoas afectadas material, física e psicologicamente pelo tornado que no dia 7 por aqui passou. Casas umas sem telhado, outras sem janelas ou portas, outras onde as mobílias desapareceram, outras simplesmente uma amálgama de restos; carros atingidos com detritos, árvores arrancadas ou partidas, torres de alta tensão, postes, muros, barracões… enfim, “tudo o vento levou”, e no epicentro mediático um jardim-escola com 140 miúdos cujas educadoras e auxiliares passaram a ser para mim, e seguramente para a generalidade dos outros professores do nosso país, heroínas.
Certamente temos todos, ou pelo menos nós os que não fomos directamente afectados, de concordar que apesar de tudo houve uma pontinha de sorte. Não houve vítimas mortais, e mesmo a dimensão dos feridos quando comparada com os números da tormenta é reduzido. Não é difícil para ninguém imaginar que se o percurso do tornado fosse um pouco mais a sul, atravessando a cidade, a situação até nos estragos materiais seria certamente diferente.

Voltando ao concreto, a primeira coisa que se constata não é novidade. Nestas situações drásticas revela-se normalmente o melhor e o pior do ser humano – o melhor, aqueles que logo acorrem altruisticamente para prestar auxílio; e o pior, os que vão como nos acidentes na estrada abrandar para ver, ou seja, armados em mirones com máquinas fotográficas e tudo, vão encher de carros e pessoas os locais onde o que é mesmo preciso é fluidez e capacidade de mobilidade; vão egoisticamente porque para satisfazer a sua curiosidade mórbida, indo além do mais atrapalhar quem está a trabalhar ou quem precisa de auxílio.
Nestes momentos de ocorrências extremas pedimos (quase) todos o que deve ser pedido, que assumam as suas responsabilidades nas operações quem as tem, e que ajam as instituições públicas nos apoios posteriores a ser prestados, com a capacidade e agilidade equivalente à necessidade.

Não há contudo, é preciso dizê-lo com responsabilidade, sistema que numa situação destas não tenha falhas, aqui ou em qualquer parte do mundo. Não podemos ter recursos infinitos, não se podem ter meios materiais e humanos permanentemente ao dispor a pensar numa situação extraordinária que possa acontecer. Não há impostos que paguem isso, e mesmo que houvesse haveria sempre lacunas. Não é possível ter um carro de bombeiros, uma ambulância e um agente de polícia ao pé de cada casa. Portanto, falhas terá havido com certeza, mas é preciso dizer que genericamente as coisas correram bem, os profissionais e os responsáveis estiveram à altura do momento difícil.

Apesar disso já se levantaram as críticas, umas naturalmente compreensíveis, porque vindas de quem possa não ter recebido ajuda imediata; mas outras lamentáveis, vindas de quem “ouviu umas bocas”, de quem julga ser dono do conhecimento, ou até mesmo muitas baseadas em histórias mal contadas, como aquela de dizer que os militares não ajudaram porque a câmara recusou – críticas que além do mais mostram que quem as profere nada sabe da forma como funciona o sistema de protecção civil, como são as regras estabelecidas entre entidades, ou em que circunstâncias actua o exército. O que não quer dizer que eu não ache que o exército devia ter auxiliado, não se pode é dizer que a culpa disso é da câmara.

O pior das críticas acaba por ser quando elas vêm de quem tem mais responsabilidade. Como aquele autarca sempre pródigo nas aparições para a comunicação social, que no próprio dia começou a criticar a câmara e a protecção civil por não terem ido ao local, esquecendo que os bombeiros fazem parte da protecção civil, e que ele próprio além de responsável político, é enquanto presidente de junta também elemento do sistema de protecção civil.
E depois há também os partidos e forças políticas que se põem a fazer comunicados e a anunciar reuniões e mais não sei o quê. Tudo isso se resume numa palavra: Demagogia. Parece que a alguns políticos ainda não foi dado a perceber que vivemos num tempo novo, as pessoas estão fartos de teatro desempenhado por maus actores – deixemo-nos de fitas, questões como a catástrofe que ocorreu na passada semana não podem servir para politiquice!
É nos momentos difíceis que melhor se vê o carácter e a capacidade das pessoas, e a seriedade na política é tratar os assuntos com sentido de dever, e nestes momentos é preciso deixar trabalhar quem sabe e tem essa obrigação. Há regras estipuladas, há estruturas de comando, há pessoas experimentadas. Aquilo que podemos fazer (e devemos!) é individualmente, segundo a consciência e a disponibilidade de cada um, apresentarmo-nos para ajudar se for preciso, sem pretensões de sabermos mais, sem querer dar “bitaites” mas numa postura franca de, com voluntariedade e solidariedade, querermos ajudar.

Até porque é impossível resolver uma situação destas sem contar com a solidariedade de muitos, sem a mobilização dos civis, e se calhar menos do que desejável, mas houve-a apesar de tudo. Ora, estamos em Dezembro, o mês do Natal, celebração que costuma dizer-se, é a época em que mais se sente o espírito de amizade, solidariedade, entre-ajuda, enfim, quando o ser humano é efectivamente mais humano.
Bom, em Tomar esse espírito foi posto à prova, muitos foram os que se entregaram à tarefa e deram do seu tempo e do seu suor para ajudar outros, em boa parte das vezes sem sequer os conhecer. É bom sinal que muitos fossem jovens. E é preciso agradecer particularmente aos voluntários que vieram de outros locais do país, e segundo sei até do estrangeiro. Claro, a grande maioria dos 40000 tomarenses nada fez, foi como se fosse apenas mais uma notícia no telejornal de mais uma coisa qualquer acontecida algures noutro sítio do mundo.

Pois, é muito fácil falar de espírito natalício quando isso trata de comprar umas prendas, ou continua a ser ainda assim fácil falar de solidariedade, quando se trata de dar um saco de arroz à saída do supermercado, ou uns trocos quando vão pedir lá a casa. Mas dar do seu tempo… ou do seu esforço… pois, é mais difícil.
Enfim, há ainda trabalho a fazer, mas se lições houverem já a retirar, entre seguramente uma ou outra falha do sistema a corrigir, essas lições devem começar em cada um de nós de forma muito simples. Primeiro que as “coisas” não acontecem sempre aos outros e nunca se sabe quando precisamos nós de ajuda; e depois, que a responsabilidade, a indisponibilidade, as falhas não estão sempre nos outros, começam sim em nós. Quando começamos a criticar, comecemos por nos olhar ao espelho. Sendo a época propícia, parece-me um excelente exercício para descobrir que valores residem afinal em cada um de nós.
E com este registo, que tenham todos o melhor Natal possível.

3 comentários:

silvia disse...

*é deste Hugo k eu gosto ou daquele k numa simples foto retratou o Natal dos sem abrigo e nos faz meditar!

já não se podem mandar piropos -agora é tudo com BI - não passa nada aí para esse lado sem saberes de onde vem.

ab

Hugo Cristóvão disse...

Não bem verdade, os comentários anónimos continuam a ser permitidos.

Mesmo que eu quase sempre saiba de onde vêm.

Anónimo disse...

Presunção e água benta...