sexta-feira, junho 21, 2013

"Direito e dignidade"

A minha crónica de quarta na Hertz pode lá ser ouvida ou lida na íntegra no esquerdo capítulo.

«É absolutamente incompreensível as opiniões dos que acham que, sim sim, têm direito à greve, desde que não prejudique ninguém. E de uma enorme hipocrisia os que acham que a greve de segunda prejudicou os alunos!
O que prejudica os alunos são as condições cada vez piores existentes nas escolas, a falta de recursos humanos e outros apoios, o aumento do número de alunos por professor havendo muitos casos de docentes com duzentos ou trezentos alunos; as propinas elevadas e os custos generalizados da educação cada vez mais elevados, e mesmo a falta de saídas profissionais ou um governo que diz à geração melhor preparada de sempre para emigrar. Isso sim, prejudica os alunos!
E mais importante que isso, prejudica todo um país e o seu futuro.

(...)
Já era evidente que o governo se está nas tintas para os alunos, e quer lá saber da legalidade, da equidade ou da igualdade de oportunidades. O que aqui se provou com esta atitude é que o governo quis vincar uma vez mais, não aos docentes mas a toda a sociedade, que não está para cedências, diálogos ou reivindicações, quis mostrar basicamente que, não adianta a contestação e a luta dos cidadãos, o governo fará sempre o que quer, contra tudo e contra todos, mesmo que contra milhares de cidadãos, ou contra a lei e contra os tribunais.
E é essa atitude, digo eu, que não podemos aceitar vindo de qualquer governante. E é por essa essência de dignidade e de limiar mínimo do estado de direito onde os governantes não se impõem aos cidadãos, mas respeitam-nos e representam-nos verdadeiramente, que acho que todos devemos continuar, e muito mais do que até aqui, a lutar.
A Liberdade e a Democracia são daquelas coisas a que costumamos dar valor quando não as temos. Por isso espero que tenhamos todos a noção de que já estivemos mais longe de as perder

quinta-feira, junho 20, 2013

desencontrado


De que serviu ir correr mundo,
arrastar, de cidade em cidade, um amor
que pesava mais do que mil malas; mostrar
a mil homens o teu nome escrito em mil
alfabetos e uma estampa do teu rosto
... que eu julgava feliz? De que me serviu

recusar esses mil homens, e os outros mil
que fizeram de tudo para eu parar, mil
vezes me penteando as pregas do vestido
cansado de viagens, ou dizendo o seu nome
tão bonito em mil línguas que eu nunca
entenderia? Porque era apenas atrás de ti

que eu corria o mundo, era com a tua voz
nos meus ouvidos que eu arrastava o fardo
do amor de cidade em cidade, o teu nome
nos meus lábios de cidade em cidade, o teu
rosto nos meus olhos durante toda a viagem,

mas tu partias sempre na véspera de eu chegar.

Maria do Rosário PedreiraNenhum nome depois.

segunda-feira, junho 17, 2013

pela dignidade e pela escola pública

foto de aventar

«Considero importante que crianças, jovens, pais e professores, venham para a rua defender a sua escola. É um sinal de vitalidade da nossa sociedade"»
Cavaco Silva, durante o governo de Sócrates, claro

«O homem não é nada além daquilo que a educação faz dele.»
Immanuel Kant

Não sou por norma pessoa de aderir a greves. Desde que iniciei em 99 o meu percurso profissional terei feito umas duas. E sim, acho que os professores têm feito por vezes algumas greves desnecessárias e com lutas erradas, levados por alguns sindicatos com agendas que não são necessariamente as que mais interessam aos docentes, normalmente os ligados à Fenprof. (e para que fique mais claro, não acho nenhuma piada à postura, que muitas vezes como professor me deixa envergonhado, do conterrâneo e há vinte anos fora da escola, Mário Nogueira).
Por isso, as greves (somadas com ideias tão absurdas como generalizadas: que ganham bem, que fazem pouco, que têm muitas férias…), ajudaram a criar uma imagem negativa dos professores junto da opinião pública apesar de terem sido quase sempre inconsequentes.

Não é o que se passa agora. Temos, talvez pela primeira vez, uma greve que tem efeitos – como é suposto que uma greve tenha! Se não é para ter efeitos para que serve uma greve?
E não foram os professores que escolheram este calendário, foi e é o ministério que colocou estas questões agora em cima da mesa.
E, muito mais importante, as razões são profundamente legítimas. Sim está em causa a questão profissional de (mais uns) milhares de docentes a quem o governo quer despedir, metendo pelo meio o horário de trabalho. Mas mais importante ainda, está em causa a qualidade do ensino e a manutenção da escola pública, enquanto instrumento capaz de servir todos os portugueses em igualdade de oportunidades e garantir e construir o nosso futuro coletivo.

Mas vamos por partes. Para que se perceba melhor, o horário de trabalho semanal dos docentes está divido em três componentes: a letiva, que, simplificando, trata das aulas propriamente ditas, e que varia entre 22 a 25 horas; a não letiva de estabelecimento, que tem a ver com outras funções na escola, como aulas de apoio, coordenações, biblioteca e outras (3 a 5 horas); e a de trabalho individual do docente, que tem que ver com preparação de aulas, conteúdos e materiais, correção de testes, entre mais e que o docente pode e quase sempre faz em casa (o restante tempo para as atuais 35).
Claro que a generalidade dos docentes faz muito mais do que estas horas, não só porque passa muito mais horas na escola (para não falar dos que têm que lecionar em mais que uma), até porque há reuniões, visitas de estudo, outros projetos, que ficam de fora da contagem de tempo; e ainda porque, já não fora o caso de em poucas profissões se levar trabalho para casa (e não me recordo de nenhuma na função pública), como também aí se gasta muito mais tempo, além de usar os recursos materiais do próprio.

Ora, a qualidade do ensino está cada vez mais deteriorada, com os professores atolados de alunos e papelada, além de acossados por todos os governos e pela sociedade em geral, desrespeitados enquanto classe por alunos, pais e demais comunidade. É assim fácil perceber o estado de espírito que vai nas escolas por esse país. E isto apesar de não só a opinião pública, como mesmo alguns docentes não terem ainda a real noção do que está este governo a fazer, até porque se contradiz e falta à verdade com regularidade.
Uma sociedade que não valoriza os seus professores, o seu sistema de ensino, não se valoriza a si própria e compromete o seu destino – é da história, aprenda-se com ela.

Se, de qualquer forma, for difícil de compreender a razão dos professores que deve ser de toda a sociedade, atentemos na incompetência do ministro e do governo (que sim, tem sido apanágio de quase todos os ministros da educação, normalmente porque não percebem nada da prática daquilo que ministram) bastando apenas isto: a comissão arbitral propôs a alteração da data do exame – o ministro mostrou-se inflexível. O primeiro-ministro foi ainda mais longe, se o tribunal não nos der razão, mudamos a lei.
Eu não sei em que país e em que espécie de ditadura julgam estes senhores estar a governar, mas parece-me ser claro algo, a escola falhou na formação cívica destes senhores. Talvez tenha sido por isso uma das primeiras coisas que cortaram do atual currículo…

Por fim, e para que fique clara a minha declaração de interesses, sim sou professor, e se calhar tenho uma visão parcial e implicada da questão (não creio, mas aceito essa opinião). Mas sou professor do quadro e com horário, e assim sem a perspetiva do despedimento; como a todos o dinheiro recebido a menos por conta da greve faz falta; e, apesar de até fazer parte do secretariado de exames na minha escola nem sequer há ensino secundário logo não há qualquer exame marcado para hoje, pelo que tinha boas desculpas para encolher os ombros e fazer de conta que não é comigo.

Mas dividir para reinar parece cada vez mais a aposta clara da desesperada tentativa de se manter no poder e na senda ideológica de destruição do estado social destes senhores liberais que, depois de se apoderarem do seu partido, se apoderaram do governo. Essas divisões na sociedade sentem-se em crescendo de tensão, e esta da opinião pública contra os professores é apenas mais uma.
Por isso, se a sociedade no seu todo mais global não perceber a necessidade enquanto nação de apoiar e de se juntar aos professores, pelo menos que o saibamos fazer nós.
Por isso faço greve, por isso quero Crato, Gaspar e Passos longe da gestão do país.

sexta-feira, junho 14, 2013

acima das nuvens o céu está sempre limpo


Com uma história passada à beira mar, também o li quase todo sobre a areia... o meu presente conselho literário vai para o livro que ganhou o Prémio LeYa no passado ano.
O segundo livro de um autor que deve já figurar entre os melhores novos autores portugueses.
Muito bem escrito, profundo, com uma acção fluída, quase cinematográfica, e personagens bem desenvolvidas, um tocante retrato das vidas diárias de tantos de nós, dos sucessos e das frustrações, das amizades, dos amores, da solidão de tantos.

No prólogo, um resumo que define bem o que se segue, escreve o autor:
«Uma história são pessoas num lugar por algum tempo. As margens da página, como o silêncio, estabelecem limites certos para que um conto não se confunda com o que não lhe pertence. Pode contar-se uma história enchendo uma caixa vazia ou desenhando paredes à volta de gente. Esta é uma história de portas adentro.»

E entre tantas frases deliciosas e certeiras destaco ainda esta algures no livro que, independentemente do contexto em que lá surge, se aplica a tanto da vida dos homens...
«Aos rebanhos pouco lhes interessa se o pastor acredita no pastoreio. Basta que os leve aos pastos, que os proteja do frio e os assista na doença.»

Debaixo de algum céu, Nuno Camarneiro, LeYa.

Greve! Para que o país não pare.

Apesar de ser perigoso este tipo de argumentação - quem não quer fazer greve tem todo o direito em não o fazer (eu, regra geral, não faço, mas o governo ultrapassou todos os limites da razoabilidade) - não deixo de publicar este texto para contribuir com um pouco de luz sobre alguns comentários que oiço contra as greves.

«DECLARACÃO ANTIGREVE:

Eu,.............................................. , NIF . ..........................., Trabalhador/a da empresa.................................................,

DECLARO:

QUE estou absolutamente contra qualquer coação que limite a minha liberdade de trabalhar.
QUE, por isso, estou contra as greves, piquetes sindicais e qualquer tipo de violência que me impeçam a livre deslocação e acesso ao meu posto de trabalho.

QUE por um exercício de coerência com esta postura, e como mostra da minha total rejeição às violações dessas liberdades,
EXIJO:

1 º. QUE me seja retirado o benefício das 8 horas de trabalho diário, dado que este benefício foi obtido por meio de greves, piquetes e violência, e que me seja aplicada a jornada de 15 horas diárias em vigor antes da injusta obtenção deste benefício.

2 º. QUE me seja retirado o benefício dos dias de descanso semanal, dado que este beneficio foi obtido, por meio de greves, piquetes e violência, e que me seja aplicada a obrigação de trabalhar sem descanso de domingo a domingo.

3 º. QUE me seja retirado o benefício das férias, dado que este benefício foi obtido por meio de greves, piquetes e violência, e me seja aplicada a obrigação de trabalhar sem descanso os 365 dias do ano.

4 º. QUE me seja retirado o benefício dos Subsídios de Férias e de Natal, dado que este benefício foi obtido por meio de greves, piquetes e violência, e me seja aplicada a obrigação de receber apenas 12 salários por ano.

5 º. QUE me sejam retirados os benefícios de Licença de Maternidade, Subsídio de Casamento, Subsídio de Funeral dado que estes benefícios foram obtidos por meio de greves, piquetes e violência, e me seja a plicada a obrigação de trabalhar sem usufruir destes direitos.

6 º. QUE me seja retirado o benefício de Baixa Médica por doença, dado que este benefício foi obtido por meio de greves, piquetes e violência, e me seja aplicada a obrigação de trabalhar mesmo que esteja gravemente doente.

7 º. QUE me seja retirado o direito ao Subsídio de Baixa Médica e de Desemprego, dado que estes benefícios foram obtidos por meio de greves, piquetes e violência. Eu pagarei por qualquer assistência médica e pouparei para quando estiver desempregado/a.

8 º. E, em geral, me sejam retirados todos os benefícios obtidos por meio de greves, piquetes e violência que não estejam contemplados por escrito.

9 º. DECLARO, também, que renuncio de maneira expressa, completa e permanente a qualquer benefício actual ou futuro que se consiga por meio da greve do dia 17 de Junho de 2013.

Alice Vieira»

quinta-feira, junho 13, 2013

a multiplicidade do ser

Neste dia em 1888 nasceu o génio dos múltiplos heterónimos (mais de 100 nas últimas contagens). O enorme Pessoa.
(Aqui, alguns dos seus livros para download grátis)

Não sei quantas almas tenho

"Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem achei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,

Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem,
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: «Fui eu?»
Deus sabe, porque o escreveu."

              Fernando Pessoa


(adenda: um artigo muito interessante no I sobre os 125 anos de Pessoa)

segunda-feira, junho 10, 2013

«Queria que os Portugueses»

Queria que os portugueses 
tivessem senso de humor 
e não vissem como génio
todo aquele que é doutor

sobretudo se é o próprio 
que se afirma como tal 
só porque sabendo ler 
o que lê entende mal 

todos os que são formados 
deviam ter que fazer 
exame de analfabeto 
para provar que sem ler 

teriam sido capazes 
de constituir cultura 
por tudo que a vida ensina 
e mais do que livro dura 

e tem certeza de sol 
mesmo que a noite se instale 
visto que ser-se o que se é 
muito mais que saber vale 

até para aproveitar-se 
das dúvidas da razão 
que a si própria se devia 
olhar pura opinião 

que hoje é uma manhã outra 
e talvez depois terceira 
sendo que o mundo sucede 
sempre de nova maneira 

alfabetizar cuidado 
não me ponham tudo em culto 
dos que não citar francês 
consideram puro insulto 

se a nação analfabeta 
derrubou filosofia 
e no jeito aristotélico 
o que certo parecia 

deixem-na ser o que seja 
em todo o tempo futuro 
talvez encontre sozinha 
o mais além que procuro. 

Agostinho da Silva, in 'Poemas'

sexta-feira, junho 07, 2013

«comunidade somos todos»

A versão integral da minha crónica de quarta na Hertzpode lá ser ouvida ou lida no esquerdo capítulo.

«Há uma diferença entre a crítica construtiva e a desistência. E desengane-se quem julga que se pode anular a política e viver sem ela. Enquanto existir a necessidade de tomar decisões públicas e coletivas terá de existir política.

Não há Democracia ou sequer sociedade humana sem ela. Os políticos são maus? Pois substituam-nos. Os partidos funcionam mal? Pois adiram e tornem-nos melhor, Portugal é dos países europeus com menor taxa de participação dos cidadãos nos partidos e na política ativa.

Não pensem é que se não participarem, que se se desinteressarem, que se nem sequer votarem, mudam alguma coisa. Essa é precisamente a melhor forma para que tudo fique na mesma, e provavelmente a principal razão pela qual também os políticos são cada vez mais alheados da comunidade ou sociedade onde estão inseridos, vivem cada vez mais num mundo só seu, e globalmente mais desfasados da realidade e por isso das soluções tantas vezes óbvias ou apenas requerentes de bom senso.

Lembremos apenas isto para que fique bem claro: nas últimas eleições autárquicas em Tomar, os eleitores que tiveram melhores coisas que fazer que ir exercer o seu dever de voto, quase desasseis mil, eram suficientes para só por si, dar a vitória a qualquer das sete listas a sufrágio. Repito, a qualquer das sete listas a sufrágio. Mas depois ouço todos a queixarem-se de quem ganhou.
Será assim tão difícil percebermos que, alguém terá sempre de ser eleito, e que, mesmo para os que se abstiverem, essa escolha é responsabilidade de todos?
Aceitemo-lo ou não, a verdade é que, como eu costumava dizer quando era líder de um partido, Tomar Somos Todos!»

quinta-feira, junho 06, 2013

os miseráveis


Victor Hugo, lindo e intemporal na história que deu musical e que do musical deu filme.
Podia ser hoje, em Portugal e em tantos outros cantos do mundo.


«Do you hear the people sing?
Singing a song of angry men?
It is the music of a people
Who will not be slaves again!
When the beating of your heart
Echoes the beating of the drums
There is a life about to start
When tomorrow comes!»