segunda-feira, setembro 05, 2011

Pedras e pedregulhos

artigo publicado no jornal Cidade de Tomar de 2 de Setembro.

Pedras Tomar tem muitas e muitas delas importantes. Como em todas as terras com passado é natural que sempre que se abre um buraco apareçam algumas. Pedregulhos também temos, e alguns ocupam lugares importantes.
Às vezes as pedras acabam por colocar mais à evidência os pedregulhos. Estamos a viver um desses momentos, a destruição de parte do alambor do Castelo de Templário.
Noutra terra ou com outros governantes o que se passou seria para todos da maior gravidade e rapidamente os responsáveis públicos e políticos viriam a público exigir a reposição do mal feito e tomariam todas as medidas nesse sentido. É senso comum que quem não respeita e defende o seu passado põe em causa o seu futuro!

Mas estamos em Tomar e os governantes que temos são quem são. As declarações que ouvi ao Presidente de Câmara Corvêlo de Sousa a uma das rádios locais (penso que à Hertz), são merecedoras dos mais infelizes e ofensivos adjectivos, e que só por economia de palavras me escuso a elencar.
Pelo meio dessas afirmações dizia que “não houve crime contra o património”. Bom, criminoso é um Presidente de Câmara ser capaz de fazer tal depoimento. Somos mesmo uma terra azarada! Noutras, os autarcas defendem até além do possível e muitas vezes sensato o que é seu, a sua terra, as suas gentes, o seu património… em Tomar, particularmente os dois últimos presidentes de câmara e outros autarcas e responsáveis públicos que as estes se juntam, são os primeiros a colocar-se contra os nossos interesses, muitas vezes por desleixo, omissão ou inacção – tantos são os casos – mas outras como no caso, deliberadamente!
O Presidente de Câmara e todos os que o apoiam colocaram-se ao lado da incúria da empresa, assumindo para si próprios esse acto criminoso. É vergonhoso o que se passa em Tomar e a ligeireza com que estas matérias são tratadas e chega a ser confrangedor a pedantice bacoca com que alguns se colocam de alto a olhar para os “pategos que querem defender umas pedras”. A ignorância realmente não escolhe idades, formações académicas ou funções profissionais, e há por aí muita ignorância diplomada!

E depois como se fosse a coisa mais normal do mundo diz-se: ah, não tem problema nenhum, naquele sítio onde se destruiu o alambor vamos construir um muro…
Claro, no fim de contas aquilo são só umas pedras enterradas há umas centenas de anos… E se umas pedras são só umas pedras, então uma parede é só uma parede, uma porta é uma porta e uma janela apenas isso – porque não começamos a substituir tudo? Podíamos começar pelo edifício sede do Município de Tomar, está visto que só serve para fazer despesa e cometer atrocidades!

Na cidade de Tomar tem-se ao longo dos últimos anos descaracterizado muito além do limite do bom gosto, da inteligência ou mesmo da racionalidade económica. Tomar era e ainda é uma cidade bonita, mas cada vez mais cheia de plásticas e cosméticas mal amanhadas, a fazer lembrar aquelas “personalidades” das revistas cor-de-rosa, de quem já não sabemos dizer a idade ou sequer o género.
Não é apenas a “cidade nova” que está repleta de edifícios “cinzentos”, sem alma ou estética, condicionados ao mais fácil e mais barato da lei do cimento. É também a “cidade velha” com as ruas cheias de granito que até há um par de anos nunca lá tinha morado, é a calçada horrível da Corredoura, são as cruzes dos Templários que quase desapareceram da calçada da cidade, é a margem do rio com muralhas de betão junto à ponte velha, são os ornamentozinhos e os floreados copiados a qualquer outra cidade que enchem as ruas, e tanto mais.
Agora, essa descaracterização chegou e de forma bem mais grave, lá acima do monte bem à beira do nosso Castelo Templário.

E não venham com as desculpas do costume que a culpa é de outros e a Câmara não pode fazer nada. O IGESPAR até pode ter responsabilidade por desleixo, por falta de fiscalização. Mas a responsabilidade direta é do dono da obra e esse é o Município de Tomar gerido por uma Câmara de seis vereadores e um presidente chamado Corvêlo de Sousa.
É tempo de dizer basta, que quase nada se faça é o que vamos todos uns mais que outros aceitando, como se um simples encolher de ombros bastasse para apagar todos os males. Mas que o pouco que se faz seja mal feito e a destruir o que nos chegou de herança patrimonial e sentimental não pode ser tolerado. É preciso dizer a quem tem por mais que recuse a obrigação de ouvir, que basta, que chega, que assim não pode ser. É preciso gritar-lhes porque com bons modos está visto que não entra lá nada, que Tomar não é deles nem está ao seu belo prazer só porque ganharam umas eleições. No fim da linha, a responsabilidade é de todos nós. Dos que gritam e dos que calam.

Corre na internet uma petição, com valor legal, que exige a reposição do alambor do Castelo Templário (http://www.peticaopublica.com/?pi=THOMAR1). Assine e divulgue por favor.
É preciso mostrar a quem tem responsabilidades que se não têm vergonha há quem tenha por eles!

3 comentários:

simon disse...

Boa noite meu caro amigo. Como sabe critiquei de forma áspera todos os partidos políticos "tomarenses" que nada dizem nem fazem. Graças a deus escapou a esse rol porque o resto parece-me ser um paraíso triste. E a chamada sociedade tomarense disse ou fez algo? Como não vivo aí não sei mas até há pouco...nada de novo na frente ocidental. E até houve gente que clamou contra o "clamor no alambor". Enfim, uma terra de que gosto e desgosto. É Portugal no seu melhor. Mas parabéns pela atitude e obrigado por ser uma voz no deserto ou será entre "pedregulhos"?????? Boa noite e cumprimentos. Ernesto Jana

simon disse...

Boa noite meu caro amigo. Como sabe critiquei de forma áspera todos os partidos políticos "tomarenses" que nada dizem nem fazem. Graças a deus escapou a esse rol porque o resto parece-me ser um paraíso triste. E a chamada sociedade tomarense disse ou fez algo? Como não vivo aí não sei mas até há pouco...nada de novo na frente ocidental. E até houve gente que clamou contra o "clamor no alambor". Enfim, uma terra de que gosto e desgosto. É Portugal no seu melhor. Mas parabéns pela atitude e obrigado por ser uma voz no deserto ou será entre "pedregulhos"?????? Boa noite e cumprimentos. Ernesto Jana

Hugo Cristóvão disse...

Caro amigo,

Os partidos, as comunidades, as sociedades sofrem infelizmente dos mesmos males, o que é normal porque são compostos pelas mesmas pessoas: apatia, desinteresse, conformismo.

Felizmente casos há que fogem ao habitual, este é um deles. Pelo menos tanto online como nas conversas de rua o assunto está presente nas preocupações dos tomarenses.
E ainda bem que pessoas há, como o professor, que mesmo não sendo tomarenses também se preocupam pelas nossas causas. Embora esta vá muito além das margens do nabão.

Quanto a mim, desde que a disponibilidade (por vezes também a mental) o permitam estarei sempre do lado das causas justas (ainda para mais em temas como a cultura ou o património), venham elas de onde vierem, a favor ou contra quem quer que seja.

Abraço