sábado, abril 21, 2007

25 de Abril… Sempre?

«Não se pode ser liberal e socialista ao mesmo tempo; … não se pode ser católico e comunista – de onde deve concluir-se que as oposições não podiam em caso algum constituir uma alternativa e que a sua impossível vitória devia significar aos olhos dos próprios que nela intervinham cair-se no caos, abrindo novo capítulo de desordem nacional»

Este é parte de um discurso do “ex-Presidente do Conselho”, exemplar manifestação da sua intolerante forma de pensar e que determinou a actuação da ditadura obscurantista que alguns afirmam não ter sido fascista, durante meio século em Portugal. E agora que nos aproximamos de mais um 25 de Abril, parece também ter chegado esta moda revivalista de Salazar, que pode vir para perdurar.
Ao mesmo tempo que “a velha senhora” ganha concursos e é desejado tema de museu, e grupos fascistas concorrem a Associações de Estudantes e colocam outdoors em locais públicos, um partido de esquerda bem acentuada quer agora a nacionalização da EDP e da Galp… Se isto não é revivalismo, se isto não é a reminiscência da formatação mental da ditadura…
Sem vilões não há heróis, e de facto parece que é preciso ainda o fantasma do homem que caiu da cadeira, para que alguns se possam afirmar grandes resistentes sofredores e detentores da vitória da Liberdade… ainda que muitos nas práticas sejam tudo menos democráticos.
Sendo ou não sendo moda apreciar Salazar, verdade será que nas atitudes de alguns o estilo e a ideologia parece nunca ter perecido.

Ainda há dias neste mesmo jornal alguém militante e responsável num partido que se afirma de matriz social-democrata criticava de forma vil o facto de largas centenas de pessoas se terem formalmente e de acordo com a Lei, manifestado contra aquilo que é uma intenção da autarquia tomarense, e lamentava que o partido que represento tivesse tomado a dianteira na promoção dessa iniciativa. Naturalmente gostaria que nos mantivéssemos calados.
Queixava-se ainda do facto deste mesmo partido ter produzido folhetos onde eram expressas as nossas opiniões, e pelo meio (re)afirmava espantemo-nos, que os símbolos públicos são propriedade de alguém. Não percebo porque não estão presos todos os que usaram bandeiras no Euro 2004…
É efectivamente verdade que hoje, há ainda quem não goste de que as pessoas sejam esclarecidas, há quem prefira os cidadãos na ignorância, há quem use e abuse do facto do conhecimento ser poder e a falta dele ser servidão. Há tiques que demoram muitas gerações a desaparecer. E se ficarmos quietos e calados, demoram ainda mais.

A Liberdade nunca está segura, e quando a maioria a dá como banal é exactamente quando ela está mais em perigo. Perceba-se que em 900 anos de história do nosso país, só há pouco mais de 30 vivemos algo próximo disso a que chamamos Liberdade.
Como cantaria Paulo de Carvalho, é preciso “saber como se ganha uma bandeira”, “aprender quanto custa a Liberdade”! Mas quem hoje se dá ao esforço de ao menos tentar “ganhar uma bandeira”? Quantos sabem quanto custa a Liberdade? Está a Liberdade a preço de saldo?
"Se a liberdade significa alguma coisa, será sobretudo o direito de dizer às outras pessoas o que elas não querem ouvir.", disse George Orwell (autor da expressão Big Brother), e portanto é preciso que isto se diga: o problema maior dos portugueses são os portugueses, somos nós e cada um de nós o nosso pior inimigo; o maior dos nossos males é o pouco assumir das responsabilidades, é o exigir o máximo dos direitos e mínimo dos deveres, é o espírito de treinador de bancada – todos sabem dizer mal, mas poucos se esforçam por apresentar alternativas, por mudar, por sequer fazer críticas válidas e construtivas. Olhamos muito para o umbigo, esquecendo-nos que todos os outros têm um também.
Será por isso necessário, adaptando a frase de Kennedy, pensar não no que Portugal pode fazer por nós, mas no que podemos fazer por Portugal. Acreditar aplicando-o, que é do benefício do colectivo que devemos partir para o benefício individual e não o contrário.
Sem isto, sem a assumpção das responsabilidades, sem a percepção que a Liberdade se constrói e se alimenta todos os dias, que ela só existe quando respeitamos a Liberdade dos outros, e que só dessa forma, com recurso à Tolerância e à Inteligência se chega à Igualdade podendo assim iguais ambicionar o ideal utópico da Fraternidade, a Democracia estará sempre em risco.

De 74 para cá muito foi feito, sim, e é preciso repeti-lo muitas vezes como antídoto para o pessimismo e saudosismo Luso, mas também é acertivo que muito há ainda a fazer, em especial nas mentalidades e nos espíritos de cada português.
É imperioso, acabar com o medo de criticar, o medo de dizer o que vai na alma, o medo de enfrentar os poderes instalados, o medo de enfrentar a autocracia, o medo das represálias.
Há que entender que o dever dos mais fortes é proteger os mais fracos, o dever dos mais esclarecidos é elucidar os menos. O ser humano completa-se quando outro ajuda a nascer. Seja fisicamente para a vida, seja intelectualmente para o conhecimento. E a quem isto compete? A todos nós. Com o poder e o conhecimento advêm a responsabilidade, e como tal é necessário que quem os detém os saiba usar e que os fins desse uso sejam o colectivo. Não há Liberdade sem pensamento Humanista.
E a todos, participar, participar, participar… nos partidos, no mundo associativo, da cultura ao apoio social, ao voluntariado, ao apoio aos desfavorecidos e grupos de risco, ou em tantos locais onde um par extra de mãos é sempre bem vindo.
Enquanto todos nós não participarmos mais, enquanto não formos mais pró-activos nos males do mundo, continuaremos a viver uma Liberdade pouco mais que aparente e muito próxima da precária. Continuaremos a ser pouco senhores dos nossos destinos e a deixar que alguns nos guiem, mesmo que sem nos apercebamos, os nossos passos.
E resumindo, o que importa é: o que pensa disto e o que é que está disposto(a) a fazer?

Por Portugal, e por cada um de nós.
25 de Abril, SEMPRE!

artigo publicado no jornal Cidade de Tomar de 20 de Abril, onde aparece com uma ou duas gralhas que me são estranhas

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