segunda-feira, fevereiro 07, 2022

A vitória da Democracia


Texto escrito na edição de 4 de fevereiro do jornal
Cidade de Tomar

O povo decidiu, está decidido. Apesar de que como todos sabemos e quase todos admitem, estas eleições terem sido desnecessárias, não deixaram de ser, como sempre, uma festa da Democracia. E merecem alguns sublinhados e algumas reflexões.

O primeiro é mesmo o do aumento da participação, sobretudo num tempo em que muitos não puderam votar ou tiveram receio em fazê-lo. Apesar da abstenção oficial (a real é menor, continuam a existir muitos “eleitores fantasmas”), continuar a ser demasiado elevada e uma desonra para todos os que lutaram pelo direito de voto ou que em muitos países ainda não têm esse direito.

Ficou claro neste resultado histórico que a governação do partido socialista é apreciada e desejada pela maioria da população. Estranho seria se assim não fosse. Um Governo que conseguiu a primeira governação sem défice da história da Democracia e o maior de crescimento da convergência económica e social com a média da União Europeia; ou ganhos como o maior aumento do salário mínimo ou o baixo número de desemprego, mesmo tendo nestes últimos dois anos que fazer face a um “pequeno problema chamado Covid”, para o qual a capacidade de ação foi mundialmente das melhores como sabemos, envergonhando até países bem mais ricos e dotados de outras capacidades.

Por isso, era natural que os partidos que causaram a interrupção do governo fossem penalizados. Os portugueses e bem, mormente depois dos dois anos que vivemos e do que há para fazer face à recuperação económica, à aplicação dos fundos do Plano de Recuperação e Resiliência e à negociação do novo Quadro Comunitário de Apoio, querem estabilidade.

Por vezes alguns partidos ou alguns dirigentes políticos e agitadores sociais não compreendem isto, mas são dos mais elementares valores para a generalidade do ser humano: a estabilidade, a persistência, a coerência.

Há questões preocupantes, claro. O expetável aumento da extrema direita tornou-se realidade e a todos deve inquietar, e se a isso adicionarmos que por parte dos jovens, normalmente mais alheados dos atos eleitorais por não sentirem na pele a sua necessidade, que muitos dos que ainda assim votaram estão a seguir este caminho e a deixar-lhe levar pelos populistas cantos de sereia dessa direita, devemos sentir-nos profundamente inquietos.

A questão dos jovens é determinante para a nossa Democracia e para o futuro do nosso país. Os jovens não entendem a necessidade do Estado Social, a sustentabilidade da segurança social e das reformas é algo que nada lhes diz, vem lá muito longe; a Escola Pública é algo que tem como adquirido e que acham inalterável; o Serviço Nacional de Saúde e a comparação com sistemas privados é algo que a maioria nunca experimentou conscientemente, e por isso, quando alguém lhes acena com a ideia de que o Estado só serve para cobrar e para desperdiçar ou dar a quem não precisa, que o bom é não pagar impostos e que há mesmo países que funcionam assim, é infelizmente natural que se deixem levar na cantiga. Afinal, também há menos jovens e até bem formados que pensam assim.

A questão da extrema direita, assente como historicamente acontece, na figura duma só pessoa bem-falante, continuará a crescer até se implodir no vazio das ideias e soluções válidas para a sociedade portuguesa. Mas o alheamento dos jovens, que serão em poucos anos a força de trabalho e a composição social maioritária do país, e a sua visão de economia liberal e afastamento do papel do Estado, é sim muito inquietante e exige de nós uma capacidade de intervenção pedagógica em torno de todos esses jovens que nos rodeiem.

Não posso terminar esta breve reflexão sem um olhar para Tomar. Para nós estas eleições também foram importantes. Tomar e o município em particular tem um conjunto de ações e candidaturas a decorrer que urge continuar. E sabemos bem quem seria o alvo preferencial no distrito se os resultados em Tomar e no país fossem outros.

E não pode deixar de ser sublinhado que o PS nabantino teve a sua mais forte representação de sempre nas listas ao parlamento e continuará a ter no nosso deputado Hugo Costa um defensor de Tomar e da região.

Por fim, existe o receio que eu também partilho, dos vícios de poder que uma maioria absoluta pode criar. Com maior poder vem maior responsabilidade. De quem governa é certo, mas que seja também de todos nós enquanto cidadãos ativos e contribuintes para o desenvolvimento da nossa sociedade e de cada uma das nossas comunidades.

Hugo Cristóvão
Presidente do Partido Socialista de Tomar

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