Tomando como base o que era para ser uma pequena resposta a um comentário do Virgílio Lopes, jovem comunista tomarense, ao post em que divulgo a manifestação em Tomar "que se lixe a troika" e que, resumindo, me falava na necessidade de simplesmente romper com a troika, acabei por me estender no texto e não o publiquei. Recupero-o agora aqui para o mural.A questão não pode ser colocada dessa forma Virgílio, por mais que a malta dos partidos do eterno protesto não o entendam ou não queiram aceitar. Nós precisamos do dinheiro da troika, e isso é um facto.
A questão essencial não está no memorando, está sim naquilo que está a ser feito usando essa desculpa, mas que na verdade não está lá escrito ou está apenas em linhas gerais.
Um pequeno exemplo: está escrito no memorando como uma das medidas a diminuição do apoio do estado aos privados na área da educação - no entanto, uma das primeiras medidas do governo foi aumentar o subsídio às escolas privadas, apesar de todos os cortes no ensino público.
O problema do país e do governo português (que já se finou), é que estão a ser aplicadas receitas ideológicas que não foram sufragadas e não encontram eco sequer, na maioria daqueles que representam a base social dos partidos do governo - e isso não é democrático, e por isso o governo não tem legitimidade democrática para governar desta forma. (Os desenvolvimentos dos últimos dias são claros quanto a esta questão).
Outro problema não está tanto na austeridade que de uma forma ou de outra teria de acontecer porque, independentemente das razões que nos trouxeram a este ponto, andámos todos, e quando digo todos, refiro-me mesmo aos cidadãos em geral, classe média em particular (e é fácil comprovar isso de muitas forma) a viver acima das nossas possibilidades.
Por isso, o problema, dizia, não está tanto na austeridade, mas sim nas medidas inconsequentes ou lesivas para a maioria dos cidadãos e da sociedade em geral, que não permitem vislumbrar nenhum horizonte de esperança no fim dessa austeridade.
Outra questão essencial é que, ao contrário da lavagem cerebral que Governo e alguma comunicação social tenta efetuar, há opções, há alternativas. Na política há sempre opções, na Democracia há sempre alternativas. Esta visão enviesada ultra-liberal e minoritária do Governo não é a única opção e não é, lá está, uma alternativa com futuro.
Mas a opção também minoritária dos eternos do protesto em transformar o país num gueto político e social também não é uma alternativa com futuro, e os portugueses, felizmente, nunca a aceitarão.
A política e os partidos já tiveram melhores dias no que diz respeito à sua imagem pública e aceitação pelos cidadãos, com muitas culpas dos próprios partidos e políticos - mas que não se engane o PCP se julga que lucra politicamente com o mal estar do país, que não se engane o PCP (e também o BE) se julga que escapa à imagem global, que não se engane se julga que ser contra tudo e o seu contrário lhes permitirá alguma vez criar nos cidadãos a ideia de que possam ser uma solução para a governação.
E esse é também um dos problemas do país, só há um partido que conta na esquerda portuguesa, porque é o único que conta para governar. Eu sou dos que prefiro governos de coligação a governos de um só partido, mas na esquerda portuguesa não é possível contar com PCP e BE para a governação. Mais, todos sabem que para o PCP e o BE, o maior adversário é o PS, e isso é outro dos problemas.
Portugal é um país sociologicamente mais à esquerda, mas nunca essa esquerda está verdadeiramente representada porque dois partidos não estão disponíveis para discutir, não estão disponíveis para sair do seu mundo e cruzarem-se com o mundo dos outros e o mundo real; não estão disponíveis porque também não sabem mais e não querem expor-se às dificuldades da governação.
A esquerda portuguesa é assim infelizmente coxa, porque apesar de socialmente maioritária, é quase sempre minoritária para governar.



































