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sábado, fevereiro 12, 2011

(Quando a manhã aparece)

O relógio de Orlj (Praga) na visão de Dali

Quando a manhã aparece
Dizem que nasce alegria.
Isso era se Ela viesse.
Até de noite era dia.

Fernando Pessoa

segunda-feira, janeiro 10, 2011

Nox

Noite, vão para ti meus pensamentos,
Quando olho e vejo, à luz cruel do dia,
Tanto estéril lutar, tanta agonia,
E inúteis tantos ásperos tormentos...

Tu, ao menos, abafas os lamentos,
Que se exalam da trágica enxovia...
O eterno Mal, que ruge e desvaria,
Em ti descansa e esquece alguns momentos...

Oh! Antes tu também adormecesses
Por uma vez, e eterna, inalterável,
Caindo sobre o Mundo, te esquecesses,

E ele, o Mundo, sem mais lutar nem ver,
Dormisse no teu seio inviolável,
Noite sem termo, noite do Não-ser!

Antero de Quental, in "Sonetos"




segunda-feira, dezembro 27, 2010

Receita de ano novo

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, dezembro 15, 2010

Nocturno

Espírito que passas, quando o vento
Adormece no mar e surge a Lua,
Filho esquivo da noite que flutua,
Tu só entendes bem o meu tormento...

Como um canto longínquo - triste e lento-
Que voga e subtilmente se insinua,
Sobre o meu coração que tumultua,
Tu vestes pouco a pouco o esquecimento...

A ti confio o sonho em que me leva
Um instinto de luz, rompendo a treva,
Buscando, entre visões, o eterno Bem.

E tu entendes o meu mal sem nome,
A febre de Ideal, que me consome,
Tu só, Génio da Noite, e mais ninguém!

Antero de Quental, in "Sonetos"

terça-feira, dezembro 14, 2010

Pernoitas em Mim

pernoitas em mim
e se por acaso te toco a memória... amas
ou finges morrer

pressinto o aroma luminoso dos fogos
escuto o rumor da terra molhada
a fala queimada das estrelas

é noite ainda
o corpo ausente instala-se vagarosamente
envelheço com a nómada solidão das aves

já não possuo a brancura oculta das palavras
e nenhum lume irrompe para beberes

Al Berto, in 'Rumor dos Fogos'

Tu à Noite

Tu à noite havias de escutar
A trovoada e o ar ambulante.
Tu nessa margem hás-de virar
Para onde estão as intempéries dominantes.

Toda essa honrada esperança
Ruirá na ardósia,
E destroçará o inverno
Que vocifera a teus pés.

Se bem que ardam os altares apaixonantes,
E que o sol deliberado
Faça ladrar a águia,
Tu avançarás na corda bamba.

Harold Pinter, in "Várias Vozes"

sábado, setembro 25, 2010

o riso

Em Portugal fazem falta políticos que saibam rir e que o mostrem. Este ministro suíço, sem querer, mostra como é. O homem bem tenta falar de assuntos sérios...

domingo, março 21, 2010

Hoje é dia...

... Mundial da Poesia.


Navegar é preciso


Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa:


"Navegar é preciso; viver não é preciso".
Quero para mim o espírito [d]esta frase,
transformada a forma para a casar como eu sou:
Viver não é necessário; o que é necessário é criar.
Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso.
Só quero torná-la grande,
ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a (minha alma) a lenha desse fogo.
Só quero torná-la de toda a humanidade;
ainda que para isso tenha de a perder como minha.
Cada vez mais assim penso.
Cada vez mais ponho da essência anímica do meu sangue
o propósito impessoal de engrandecer a pátria e contribuir
para a evolução da humanidade.
É a forma que em mim tomou o misticismo da nossa Raça.
(Fernando Pessoa)

segunda-feira, fevereiro 08, 2010

__por mais um final

E na inutilidade dos dias que passam
não descubro mais razão ou sorte em mim
não no jejuar dos lírios em gotas frias do orvalho matutino
não no piar doce das rolas ao fechar os olhos com o deitar do sol
entre esses dias
e entre todo o renascer das virgens flores
e o cair das folhas amarelas crispadas, mortas, por onde já vivi
sou apenas a mesma massa de disformidade humana
crasso molde inacabado que ninguém ao certo deseja completar.

O vazio constante cresce abrupto
sugando-me a dentro, sempre
as marés de algo meu que seja vida
enchem e escoam sem areia molhar
assim cheguei, sem pensar, a mais um final
talvez prematuro ainda que ansiado
algo dei, algo fiz, cheguei julgar saber
e quando caem as últimas folhas
ainda que apenas as andorinhas se baptizem no voo
amigo feitos, amigos idos, e a estação é só mais uma...
- Alguém sabe quem sou?

no baú de silêncios, com já mais de uma década, encontrei um guião para esta hora. Naquele dia o contexto era outro e irrepetível, mas a questão acompanhar-me-á sempre. 
- porque está este post às cores? Hum, uma pergunta difícil de cada vez se faz favor!...

terça-feira, janeiro 19, 2010

de viajar precisa-se


"Morre lentamente quem não viaja,
Quem não lê,
Quem não ouve música,
Quem destrói o seu amor-próprio,
Quem não se deixa ajudar.
Morre lentamente quem se transforma escravo do hábito,
Repetindo todos os dias o mesmo trajecto,
Quem não muda as marcas no supermercado,
não arrisca vestir uma cor nova,
não conversa com quem não conhece.
Morre lentamente quem evita uma paixão,
Quem prefere O "preto no branco"
E os "pontos nos is" a um turbilhão de emoções indomáveis,
Justamente as que resgatam brilho nos olhos,
Sorrisos e soluços, coração aos tropeços, sentimentos.
Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz no trabalho,
Quem não arrisca o certo pelo incerto atrás de um sonho,
Quem não se permite,
Uma vez na vida, fugir dos conselhos sensatos.
Morre lentamente quem passa os dias queixando-se da má sorte ou da Chuva incessante,
Desistindo de um projecto antes de iniciá-lo,
não perguntando sobre um assunto que desconhece
E não respondendo quando lhe indagam o que sabe.
Evitemos a morte em doses suaves,
Recordando sempre que estar vivo exige um esforço muito maior do que o
Simples acto de respirar.
Estejamos vivos, então!»
Pablo Neruda

quarta-feira, janeiro 21, 2009

interpretar

Um amigo enviou-me junto a um texto, esta primeira estrofe do Cântigo Negro do José Régio.
Não partilhando das razões concretas pelas quais mo enviou não deixa de, além da beleza poética, ser inspiração para algumas reflexões.

"Vem por aqui" --- dizem-me alguns com olhos doces,
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom se eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui"!
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos meus olhos, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

quinta-feira, dezembro 25, 2008

outros natais...

Tu que dormes a noite na calçada de relento
Numa cama de chuva com lençóis feitos de vento
Tu que tens o Natal da solidão, do sofrimento
És meu irmão amigo
És meu irmão

E tu que dormes só no pesadelo do ciúme
Numa cama de raiva com lençóis feitos de lume
E sofres o Natal da solidão sem um queixume
És meu irmão amigo
És meu irmão

Natal é em Dezembro
Mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
É quando um homem quiser

Natal é quando nasce uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher
Tu que inventas ternura e brinquedos para dar
Tu que inventas bonecas e comboios de luar
E mentes ao teu filho por não os poderes comprar
És meu irmão amigo
És meu irmão

E tu que vês na montra a tua fome que eu não sei
Fatias de tristeza em cada alegre bolo-rei
Pões um sabor amargo em cada doce que eu comprei
És meu irmão amigo
És meu irmão

Natal é em Dezembro
Mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
É quando um homem quiser
Natal é quando nasce uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher.
Ary dos Santos

Distribuição de comida em frente à estação de Santa Apolónia, Lisboa

segunda-feira, dezembro 01, 2008

"Pudesse Eu"

Tanto para dizer ou comentar, e no entanto, a vontade para a internet é a do costume, até porque está a dar o Batman na televisão. Um pouco de poesia explica sempre melhor as coisas.

Pudesse eu não ter laços
nem limites
Ó vida de mil faces
transbordantes
Para poder responder
aos teus convites
Suspensos na surpresa
dos instantes!

Sophia de Mello Breyner Andreson

terça-feira, outubro 14, 2008

se alguém o disse melhor, porquê falar?

Além-tédio

Nada me expira já, nada me vive
Nem a tristeza nem as horas belas.
De as não ter e de nunca vir a tê-las,
Fartam-me até as coisas que não tive.

Como eu quisera, enfim de alma esquecida,
Dormir em paz num leito de hospital...
Cansei dentro de mim, cansei a vida
De tanto a divagar em luz irreal.

Outrora imaginei escalar os céus
À força de ambição e nostalgia,
E doente-de-Novo, fui-me Deus
No grande rastro fulvo que me ardia.

Parti. Mas logo regressei à dor,
Pois tudo me ruiu... Tudo era igual:
A quimera, cingida, era real,
A própria maravilha tinha cor!

Ecoando-me em silêncio, a noite escura
Baixou-me assim na queda sem remédio;
Eu próprio me traguei na profundura,
Me sequei todo, endureci de tédio.

E só me resta hoje uma alegria:
É que, de tão iguais e tão vazios,
Os instantes me esvoam dia a dia
Cada vez mais velozes, mais esguios...

Mário de Sá-Carneiro
Edvard Munch - o grito

terça-feira, setembro 30, 2008

uma pausa

Doze Moradas do Silêncio

Envolver-me
na mais obscura solidão das searas e gemer
Amassar com os dentes uma morte íntima
Durante a sonolência balbuciante das papoulas
Prolongar a vida deste verão até ao mais próximo verão
para que os corpos tenham tempo de amadurecer

...colher em tuas coxas o sumo espesso
e no calor molhado da noite seduzir as luas
o riso dos jovens pastores desprevenidos...as bocas
do gado triturando o restolho....as correrias inesperadas
das aves rasteiras ....

e crescerei das fecundas terras ou da morte
que sufoca o cio da boca.....
....subirei com a fala ao cimo do teu corpo ausente
transmitir-lhe-ei o opiáceo amor das estações quentes.

Al Berto

quinta-feira, janeiro 24, 2008

stand by

Sim, ainda ando por cá, mas o tempo (sim, sim... e a vontade!) não tem dado para 'bloguices', e se tanto haveria para comentar...
... mas também, se calhar por vezes é bom seguir aquela filosofia já mítica, proferida por um candidato socialista a uma junta de freguesia nas últimas autárquicas: Se queres que te entendam melhor, mantem-te calado.

De maneira que enquanto o algures vai estando em stand by, aqui deixo, e correndo o risco d'O Templário me apelidar de atrevido outra vez :), umas linhas escritas aí há uma década atrás, quando a minha vida sem política, até me dava para a poesia...


Beijos regados

Depois de saber que é um pouco meu o teu cheiro
depois de saber que no mais profundo de ti
corre algo que meu foi
revelei-me, fiz saltar do negro as palavras
abriu-se a luz como a rosa às carícias do sol.
De novo te encontrei, meus olhos sobre teus seios.
Agachado a teu ventre esqueci discurso exórdio
usei a língua para sentido e em salgado urdir
(conciso sem em inúteis ambages me perder)
te mostrei em hábeis toques, provas de paixão.
Como vagabundo sem rosto em noite sem lua
sou teu escravo teu instrumento
desprovido de espírito ou própria vontade.
E sinto já o avatar que em teu corpo começa
em sons suados e choques de força que expeles a tudo.
A pele da minha mão beija a tua que a sufoca
no tempo que a outra afaga e procura
radiações de calor por entre o pé e ventre teus.
No lençol e em minha boca fermenta humidade não minha.
Volume ritmo dança.
Tremor que a tudo dos corpos alcança.
Retrai-se, crispa-se o teu rosto
expande-se teu lamento doloroso em sensuais monossílabos.
E o teu cabelo e as tuas mãos e eu.
E todo o espaço aqui, e em todo o lado
ei-lo que chega, do nevoeiro o desejado
olhares que a dentro olham cerrados em prazer
e o ponto, o culminar da recta
o fim da estrada, o último raio
a última gota de chuva que cai lenta abandonada,
a língua trava, descaem-se os corpos.
Reticências pausa ecos.
Tua mão fechada tenta segurar em si as últimas águas
espelhamo-nos reconfortados
é também meu o gozo que foi teu
luzes brilham no escuro, imaginação, êxtase
lençóis suados, cinzas da fénix, o mundo renasce
o dia ou a madrugada, e por nós foi encontrado
um relance mais, um seguro traço de felicidade.

sexta-feira, dezembro 24, 2004

Boas Festas



Eu e o Tobias desejamos a todos, um Feliz Natal e um 2005 cheio de coisas boas, se possível a dobrar...
... só para ser diferente.

e já agora, gostava de partilhar estes inspirados versos, que escrevi algures na primária.
um verdadeiro artista...

O Natal
O Natal é só um dia
e eu gostava que fossem mais
os meus pais dão-me prendas
e eu dou prendas aos meus pais

O Natal é bom porque não há escola
e fico em casa a descansar
como filhoses e rabanadas
e a família vem-me visitar

O Natal é bom à pois é
seja aqui ou na Guiné
só que lá faz sol e calor
e aqui o frio gela a chaminé

quinta-feira, dezembro 16, 2004

Aparência. Conteúdo.

Há quem afirme conhecer-me e nada saiba de mim
Há quem me diga que sim e me aponte como um não
Há quem me fale e nada diga
Há quem de mim fale sem comigo falar
Há quem me critique e meu amigo seja e
Há quem me fale de mansinho e me odeie de morte
Há quem me deseje e eu não corresponda
Há quem eu queira e não me queira
Há quem saiba e quem o negue
Há quem desconheça e se faça de sábio
Há vezes que o mais sábio é o mais mudo
Há vezes tantas que o que fala o mais ignorante é
Há quem fale para que os outros o ouçam
Há quem fale para ter a certeza que sim
Há pessoas que falam diferente do que agem
Há pessoas que muito dizem e pouco praticam
Há pessoas que nada dizem e muito fazem
Há pessoas que existem mas não
Há pessoas que ficam
Há pessoas que se esquecem
Há pessoas que gostava de esquecer
Há pessoas que gostavam de ser esquecidas
Há pessoas que me intrigam, que me inquietam
Há pessoas que admiro, que respeito
Há pessoas que me alegram, que me iluminam
Há pessoas que me entristecem, que me enojam
Há vezes que não sei se há pessoas se são animais
Há vezes que percebo que o ser humano pode ser o pior e o melhor
Há vezes que aceito que mais vezes é pior que o contrário
Há vezes que me deslumbro com o contrário do pior
Há vezes que só queria ser uma árvore num deserto bem longe.

É tão difícil o "simples facto" (não é nada simples e não podemos afirmar que é facto!) de estar vivo que todos os dias me pergunto: Quem sou? O que faço aqui? Para onde vou?
Serei só eu, ou é mesmo o ser humano que é demasiado complicado?

segunda-feira, novembro 29, 2004

talvez poema

Há muito tempo que não deixo aqui uma das minhas divagações de disfarçada poesia, pois do baú deixo este tempo de espera, que escrevi algures já noutro século.



Num tempo de espera

Num tempo de espera, o silêncio de teus olhos.
Num tempo de espera, o teu sorriso fechado.
Num tempo de espera, tuas mãos mudas.
Num tempo de espera, teu corpo em nenhum lado.

É como as gotas desta chuva miudinha
humedecendo o chão, sopradas por nuvens cinzentas
a janela baça e o dedo que nela
garatuja teu adorado nome

num tempo de espera.

É a luz côncava do candeeiro
furando pelo escuro até ao retrato
onde teu rosto já de si iluminado
É agora em minhas mão beijado

num tempo de espera.

É a lágrima que corre pequena
mas cheia, talvez de saudade
o apertar meus lábios num suspiro, um lamento
engolindo em seco saliva amarga

num tempo de espera.

Num tempo de espera, como um simples inspirar
num tempo de espera, tantos e infinitos
tu insinuada em todas as voltas do ponteiro
para em tormentos mudos me ir lembrando
que amar é também um acto de espera.

quinta-feira, setembro 09, 2004

Complicados...

... os dias que têm passado. E por isso, longe ando aqui deste espaço.

A quinta à noite confirma-se, é de há muito tempo para cá, a única (mesmo assim só às vezes) em que consigo estar por casa, e isso não quer dizer que não tenha nada para fazer, mas a vontade e o discernimento também não ajudam. Bem que me apetecia ir dormir agora, mas se o fizesse acordava lá para as quatro ou cinco da manhã e isso também era mau.

Não ando muito a par das notícias, nem tenho viajado aqui pela blogolândia, e não consigo pensar realmente em nada. E como sempre acontece quando me tento forçar a fazer qualquer coisa, sem grande força para o fazer, começo a passar o tempo buscando coisas antigas como fonte de inspiração. Hoje, no baú das minhas memórias, encontrei esta insónia já antiga, dos meus tempos de estudante.


Insónia

Só, a breve luz estampada no estirador
leio, mas imagino-te, a tua voz pensa dentro de mim
danças-me nas mãos, e a tua fragilidade assusta-me
um ponto o teu olhar de humildade terna e dedicada
amo-te, poderia esmagar-te com tal paixão
sufocar-te num longo e sedento beijo, e morrias
com as minhas mãos afagar o teu pescoço e subtil quebrá-lo, e morrias
abraçando-te, enlaçar-te confiante com meus dedos penetrar teus cabelos
e num ímpeto apaixonado lançar tua cabeça na parede, e morrias.
E se morresses, quanto tempo viveria?
Até te encontrar na eternidade do tempo morto, quanto viveria?
Viveria sequer? E depois?...
duas sofridas almas gémeas arrastando-se invictas
neste amor assassino acorrentadas até ao fim do sempre.

Inspiro, como se tal purificasse, aclarasse
tenho-te, sinto-te como doença
É algo que me enerva, viciante, maquiavélico
como se inseparável, fosses também demasiado grande para minhas mãos
para te prender nos braços
meu corpo não te suporta, e não vive sem ti.
Amo-te e estou só
o escuro algo frio que me envolve no quarto
a luz directa sobre o livro
tu insinuada no virar de cada página
lá fora, para lá da janela e na noite, só o silêncio.