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segunda-feira, novembro 09, 2009

E então Tomar?

artigo publicado no jornal Cidade de Tomar de 6.11.2009

No mês que passou os tomarenses foram a votos e escolheram os seus autarcas. Bom, 22.767 (58,8%) dos 38.724 escolheram os seus autarcas. Os outros, fosse lá porque fosse não foram votar, e independentemente das opiniões, para mim isso não é uma forma de escolha mas sim de alheamento – salvas as verdadeiras excepções, muito menos que este número, dos que realmente não podiam mesmo ir votar.
Enfim, a escolha fez-se. Não aquela que realmente gostaria, mas fez-se. E não vejo grandes razões para começarmos desde já a reclamar. Todos somos responsáveis, desde logo os quase 15000 (14.899 mais 1058 brancos e nulos) que não votaram pois só esses eram suficientes para eleger um presidente com maioria absoluta, qualquer que ele fosse.
Deu no que deu: o mesmo partido, o mesmo presidente, uma maioria relativa que não permite com realismo a uma câmara governar. Perante isto o que deveria o PS fazer? É certo que o PS foi a única força das representadas na Câmara Municipal que subiu de votação, mas contas são contas, ficou em segundo.

Que forma de actuação deveria o PS adoptar? Dar prioridade ao combate político, oposição pura e dura, mais quatro anos de muito trabalho que apesar da sua qualidade ser algo inconsistente por pouca atenção merecer por parte dos cidadãos? Ou priorizar sim a responsabilidade para com a comunidade, numa leitura moderna e consciente das responsabilidades dos eleitos, perceber que com as prioridades do concelho não se brinca, e que Tomar precisa de políticos responsáveis que saibam adequar as suas actuações às prioridades de cada momento?
Goste-se ou não, foi o PSD que teve maior apoio dos cidadãos ganhando a autarquia, e Tomar não pode ficar à espera quatro anos. O PS sempre teve a postura de fazer parte das soluções e não dos problemas, e se problemas há muitos de soluções tem havido défice. O PS está convicto de ter muitos contributos a dar, e querer cooperar com eles para o melhor de Tomar. Uma coisa é certa, ao contrário dos últimos 12 anos teremos na câmara um PSD que terá de dialogar, e estamos certos de, com dificuldades seguramente, mas com lealdade, frontalidade e permanência, com vista aos interesses de Tomar, conseguirmos ter esse diálogo.
Grandes desafios são colocados a esta nova câmara, desde logo porque este é o último mandato em que existirão fundos comunitários como até aqui os conhecemos. Muito há a fazer, será preciso visão, comunicação, planeamento, capacidade de decisão e execução. Tomar e os tomarenses exigem esse trabalho e estaremos cá para o apoiar, mas também reprovar quando disso caso for.

Desenganem-se os que acreditam que ficará o PS manietado com este acordo. Temos grande confiança nas nossas propostas, e naqueles que em cada momento as defendem como agora o farão principalmente os vereadores José Vitorino e Luís Ferreira, mas não deixará o PS de ser atento e crítico, apontando formas e caminhos, à luz do nosso pensamento colectivo e do programa sufragado.
Todos Fomos Precisos para chegar aqui, e todos fomos responsáveis. Todos Somos Precisos para nos levar em frente, com mesma responsabilidade que a todos compromete, na acção e na inacção, exigindo que esteja sempre Tomar em Boas Mãos!

Nota final, porque não o fiz ainda de forma escrita, para em nome do PS desejar um bom trabalho a todos os eleitos nas nossas listas. Um abraço para todos os não eleitos – é assim a Democracia – e a participação, e em especial na dimensão política, é algo que a todos engrandece enquanto cidadãos. Um abraço especial ao Fernando Nunes e ao Tomé Esgueira, que em Alviobeira e Olalhas terminaram as suas funções enquanto presidentes de junta. Como disse Mário Soares, só é derrotado quem desiste de lutar, as vossas comunidades continuarão a precisar de vós.
Um abraço igual ao Carlos Silva – um capítulo fechado, muitos outros pela frente. Tomar e o PS continuarão a precisar de ti, se de outra forma não for liderar-nos-ás pelo teu exemplo de postura cívica. A todos vós, obrigado.

segunda-feira, outubro 05, 2009

Queremos o seu voto!

artigo publicado no jornal Cidade de Tomar, de 2 de Outubro

Ah!, pois queremos!, queremos todos. Desde aqueles que (des)governando o concelho há 12 anos, afirmam imprudentes que “Tomar não pode parar”, como se continuar a cair no buraco fosse uma opção; aos que afirmam sem pudor ser “gente que resolve”, não sendo muito claro o que é que pretendem resolver; aos que afirmam agora “saber decidir” aquilo que em doze anos não souberam enquanto militantes do partido que deixaram há dias; aos ainda que dizem ter “Tomar em primeiro lugar”, embora fazendo a candidatura só pela metade; e também aos que prometem “começar de novo”, quando não se tem notado que alguma coisa houvessem já começado.
Estou naturalmente a opinar sobre os slogans das outras candidaturas que se apresentam ao município de Tomar, faltando aqui o da CDU. Não é por desconsideração, é mesmo porque não me lembro a estas horas tardias a que estou a escrever este texto qual seja esse slogan, e como essa candidatura não tem sequer uma página na internet onde possa ir verificar aquilo a que se comprometem, já isso diz da sua validade para o século em que vivemos.
Por outro lado – pelo lado do PS – “Viver Em Tomar, Trabalhar Em Tomar”, é o mote da nossa candidatura aos órgãos autárquicos do concelho. Aqui, nestas terras banhadas pelo Zêzere e pelo Nabão, onde cavalgaram Templários e acorreram navegantes, Todos Somos Precisos para restaurar a Tomar o prestígio e liderança de outrora, aumentando as oportunidades e melhorando a qualidade de vida de quem deste concelho quer fazer o seu lar.

É com o PS que sabemos que o concelho ficará “em boas mãos”.
Posto isto, também no PS queremos o seu voto – naturalmente! Mas queremo-lo sabendo e respeitando que todo o voto no PS, não passa a ser um voto do PS, continuando a ser sim o seu voto, o voto dos cidadãos, o seu poder em nós delegado para os representar e em seu nome trabalhar.
É a nossa ambição – trabalhar por si, por todos, por Tomar. As nossas mãos são como as suas, são mãos são trabalho, mãos de querer, mãos de vontade, mãos cheias de imaginação e determinação para, de mão abertas, de mãos disponíveis, de mãos dadas, melhorarmos o nosso concelho, e acautelar que a nossa amada Tomar esteja sempre, em boas mãos!
O PS isso garante – um grande partido nacional, da esquerda moderna e democrática, que esteve a par do início da Democracia Portuguesa, e dos maiores avanços sociais e políticos do nosso país. Um partido que trabalha em rede: no país, na região, e aqui em Tomar. Essa é a outra ambição: um governo no país, um governo aqui na autarquia – o mesmo partido. Tomar só terá a ganhar se estiver incluída nessa rede. Se mesmo estando aqui na oposição tanto conseguimos para Tomar nestes 4 anos, imagine como será se atingirmos esta ambição?
No dia 27 de Setembro demos o primeiro passo: o PS ganhou no país e em Tomar. Falta o passo final.

O PS é, tal como no país, em Tomar a referência da estabilidade.
Nenhum outro partido, e muito menos forças não partidárias; com regras, estatutos e democracia interna, tem hoje o nível de solidez e união da grande maioria dos seus membros em torno dos seus dirigentes e dos seus candidatos, dos seus projectos, da sua ambição para o concelho, como tem o PS. Por muito que a alguns doa, a referência de estabilidade, coerência e segurança, é o PS. E essa é a primeira garantia de uma câmara com outra eficácia, outra solidez, outra força, outra visão e atitude.
Sem a fragmentação e desnorte do partido que há 12 anos leva o concelho por uma navegação à vista, e sem os aventureirismos e a fragilidade, ou o conservadorismo e a cristalização, ou mesmo a total descontextualização de olhar o concelho e o mundo, de outros partidos e forças que à câmara concorrem – é o PS, liderado nesta ambição pelo arqº José Vitorino a Presidente, com os demais 300 candidatos que perfazem a totalidade das listas socialistas, que em qualquer análise séria e imparcial, garante vantagem e única alternativa para a liderança segura de um concelho mais capaz.

Por isso dia 11 de Outubro, os socialistas, os que defendem o progresso e o desenvolvimento para o seu concelho, para a sua freguesia; com mais dinamismo, com apostas criteriosas e estratégicas, com transparência e seriedade, com capacidade e audácia, sabem onde têm de votar: no PS. Os que não querem nada disto, mas que Tomar fique na mesma (o que é dizer a andar para trás), têm outras seis candidaturas por onde optar.
Para os que querem a alternativa, para os que querem a mudança, só há uma escolha.
Como sempre essa escolha é sua, e ainda bem que é, é de todos. Acima de tudo exerça esse direito e dever, não deixe que os outros escolham por si, VOTE!
Em que concelho acordaremos no dia a seguir às eleições, é o que a todos compete decidir. Depois não diga que não foi avisado, depois não diga que não votou, ou que não votou nos que lá ficaram. Dia 11 de Outubro teremos a oportunidade de nos resignarmos pela continuidade ou optarmos pela mudança. O passado ou o futuro? A escolha é sua, a escolha é de todos.

domingo, agosto 30, 2009

Tomar tem de parar!

artigo publicado no jornal Cidade de Tomar

“Estávamos à beira do precipício, mas conseguimos dar o passo em frente.”

Esta gafe conhecidíssima do mundo do futebol dita há uns anos atrás por um jogador sobre o seu clube no fim de um jogo, parece ser afinal o que nos promete o PSD nos seus recém estreados cartazes. Naturalmente que desejo que o concelho ande em frente, se desenvolva de forma equilibrada, planeada, sustentada. Mas a andar como tem andado o bom mesmo é que pare rápido.
Que tudo seria mais do mesmo há muito que vínhamos dizendo, mas que o PSD não tentasse sequer disfarçar não se esperava. Dizem-nos eles que “Tomar não pode parar”, mas fora tudo o que sabemos, tudo o que aqui vamos vivendo e desta Câmara assistindo, chega-nos agora um estudo publicado há poucos meses, um estudo sério intitulado “Indicador Sintético de Desenvolvimento Económico e Social ou de Bem-estar dos Municípios do Continente Português”, feito por académicos competentes no âmbito do Observatório para o Desenvolvimento Económico e Social da Universidade da Beira Interior, com critérios e análises objectivas, e não aquelas fantochadas que alguns jornais às vezes fazem para gosto da nossa Câmara, que coloca Tomar como o 130º município nesse índice, o que sendo já suficientemente grave, mostra ainda que em apenas dois anos (o estudo anterior é de 2007) descemos 31 lugares! É nisto que não podemos parar?!

Só para compararmos ao nível distrital, Tomar aparece atrás de concelhos como Constância (6º), Alpiarça (15º), Alcanena (22º), Entroncamento (30º), Benavente (39º), Almeirim (57º), Sardoal (58º), Torres Novas (73º), Santarém (75º), Ourém (86º), Golegã (90º), Rio Maior (97º), Salvaterra de Magos (106º), Cartaxo (118º), Abrantes (128º),
Ou seja, em 21 concelhos no distrito, Tomar é o 16º! Salvaterra de Magos, Sardoal… bem, já vivi uns meses em Salvaterra, e Sardoal é uma vila giríssima tenho lá grandes amigos, mas eles conseguem ter melhor qualidade de vida que nós?! É neste “andar” que o PSD nos quer manter? Quando em 1997 o PSD ganhou a câmara com António Paiva, prometeram “tomar o rumo”, era isto afinal?! Um concelho sem prestígio, esquecido nas poeiras do tempo, com uma cidade bonitinha e um concelho cheio de potencial, mas onde o que fica destes doze anos é dinheiro desbaratado, obras mal planeada e inconsequentes, arrogância e falta de senso, e um infindável lote de oportunidades perdidas?

Confirma-se, vamos conseguindo estar à frente de Ferreira do Zêzere, mas por quanto tempo?
Se for para isto, então Tomar tem mesmo de parar! Se for para continuar a gerir a Câmara conforme os humores do dia; se for para continuar a não planear com rigor, a não ter rasgo de visão para projectar o futuro, a não investir a sério, criando prioridades de investimento coerentes e transparentes assentes em estratégia e plano de acção, capazes de mudar esta trajectória descendente e ruinosa, de total amorfismo e desnorte, sem a mínima capacidade de agir sobre o desenrolar dos tempos, incapazes de perceber as necessidades dos cidadãos, do concelho, e entender as formas de como uma autarquia deve ser hoje gerida, deve ser orientada, e de que formas deve actuar, então Tomar tem mesmo de parar.

Sejamos capazes de dar descanso ao PSD que tão incapaz e prejudicial tem sido em Tomar, queiramos mudar, sabendo como todos sabemos, sem disfarces do real e com análise conscienciosa que por entre a pulverização de candidaturas para todos os gostos, apenas uma equipa e um projecto têm sido coerentes e persistentes, que apenas uma candidatura tem seriamente capacidade e vontade, energia e determinação, seriedade e abnegação, para ser a alternativa responsável e capaz – a candidatura que agrega numa só ‘Geração’ mulheres e homens de diferentes idades, formações e experiências de vida, unidos na defesa da nossa terra, geminados na certeza da capacidade em fazer melhor e onde com essa disponibilidade Todos Somos Precisos – a candidatura do Partido Socialista.

Combater os medos e os tiques dos tempos da outra senhora!
Não podia terminar, agora que os processos de candidatura finalizaram, as listas estão feitas e entregues em tribunal, de prestar homenagem a todos os que em nome do PS, às quase três centenas de candidatos que perfazem a candidatura “Geração Tomar”, mostraram essa disponibilidade e essa vontade para dar de si, do seu tempo, das suas capacidades, das suas vidas, em nome dos ideais socialistas, mas acima de tudo em nome de Tomar.
E esta homenagem, num país que se crê democrático, mas que ainda há pouco anos o não era e onde resistem ainda muitos vícios e medos desses tempos, é por demais necessária e merecida. Merecida pois a mim que nasci depois do 25 de Abril, provoca-me alguma consternação que no ano de 2009, num mundo da internet e da soberba da informação, onde tudo está à disposição e o conhecimento e a cultura não são privilégios de ricos ou brasonados, alguém ainda tenha receio de integrar uma lista assumindo uma opção partidária, por medo de represálias laborais ou sociais; que num tempo onde se acarinha e se estimula a participação feminina, a paridade e a Igualdade, mulheres não aceitem integrar uma lista porque “o marido não deixa”; ou talvez mais que tudo o resto, na falência cívica dos que não sabem o que é ter uma ideologia, (e não falência das ideologias que essas permanecem), ponderem ser candidatos de manhã por um partido A, à tarde por partido B, e à noite acabem deitados com outro partido ou força política qualquer.

Por contraste com esses, aqui fica em nome do PS o agradecimento, e vamos ao trabalho. Tomar Somos Todos, e para os que gostamos da nossa terra, para os que continuamos a querer viver por cá, e ter condições para cá trabalhar; para todos os que nos orgulhamos com o que os que cá viveram antes de nós fizeram, e os que gostaríamos de algo semelhante deixar para os que depois de nós vierem, e acima de tudo criar condições, para que em Tomar possa não só ser melhorado o presente, mas talvez mais ainda, que possa existir futuro; para todos os que se preocupam e não se limitam a criticar, vamos em frente sim, mas vamos pela mudança, e a mudança faz-se aqui, com o PS, e com todos nós. É tempo de separar as águas, os que querem continuar nesta marcha titubeante e sem sentido, e os que querem um concelho a um ritmo certo. Como sempre, cabe a todos não fazer de conta que não é consigo, e decidirem conscientemente em que posição se colocam. Para que depois não continuem a queixar-se no vazio.
E você, de que lado está?

domingo, julho 26, 2009

Equipas e equi-parados

artigo publicado a 24 de Julho no jornal Cidade de Tomar

Neste Verão pontilhado de dias cinzentos, a política vai morna com uma ou outra trovoada. Pelo PS cá vamos, na finalização de listas, programas e afins na nossa já habitual imperturbabilidade, o que muito enerva outros.
Já o PSD, que isto para quem vê o poder a fugir, dói sempre mais, são os alcatroamentos e obras de última hora, quase sempre nas freguesias do costume, onde se chega a alcatroar por cima de alcatrão novo, não vá algum voto fugir. Uma promessa ou outra, uma ou outra proclamada vontade de trabalhar, enfim, as palavras vãs do costume.
Para mim contudo, a grande novidade foi mesmo a entrevista do vereador Carrão que – a estranheza da afirmação é tal, que até deu título – disse talvez convicto, que “as equipas do PSD são melhores”. Pois está muito bem, admitamos que andávamos todos enganados e ainda bem que o sete anos presidente do PSD e agora Vice-presidente da câmara nos avisa. Mas, eu que sou umas vezes esquisito e outras desconfiado pergunto: equipas melhores em quê, e em relação a quê?
Vamos por partes. Na Câmara tivemos dez anos António Paiva que desconsiderava a reunião formal de câmara pois muitas vezes nem lá ia, e quando ia, mais ninguém da sua equipa falava. E não é muito diferente desde que se foi embora. Todos sabemos aliás que aquelas reuniões são apenas para fazer de conta que se cumpre a Lei. Já vai tudo decidido. Quanto às equipas, bem sabemos como foram formadas pelo independente António Paiva. De forma a serem o mais apáticas possível.
Na Assembleia Municipal, a grande maioria dos elementos do PSD, raramente abriu a boca, estou aliás convicto, e era bom de apurar, que alguns nos quatro anos de mandato, nem uma palavra disseram. E aquela que era na prática, a líder da bancada, e portanto quem mais intervenções fazia, está agora com vários outros da área do PSD, numa lista dita independente. Até os presidentes de junta, que muito criticam em surdina, raramente, e apenas um ou dois casos, foi capaz de em Assembleia dizer um pouco do que o preocupasse a si e aos concidadãos da freguesia. Pelo contrário, a maioria das vezes estiveram calados servindo apenas de peões para o PSD ter os votos necessários para fazer aprovar ou reprovar o que lhe convinha, chegando mesmo a votar contra os interesses da sua freguesia, como no caso da Asseiceira, em que o presidente votou contra a proposta de instalação duma Loja do Cidadão na Linhaceira.

São afinal melhores em quê as equipas do PSD?
A obedecer cega e várias vezes insensatamente, ao todo poderoso líder? Sim, isso confirma-se que são. E a que líder obedecem agora?
Eu não gosto nem tenho hábito de me meter na vida interna dos outros partidos (ao contrário do que todos julgam poder fazer com o PS) mas quando isso influencia a gestão da Câmara devemos fazê-lo. É que relativamente ao PSD temos que perguntar afinal o que decidem os seus militantes, se é que decidem alguma coisa sequer. Tem o próprio presidente da concelhia algum voto na matéria? Ainda há alguns dias terá afirmado que as listas não estavam fechadas… Não se percebe nada do que por ali vai, e com isso não tenho nem o PS qualquer problema. O problema sim é que isso é o que se passa na Câmara há muito tempo, e é em essência a imagem que fica da gestão PSD da autarquia: Desorientação; Navegação à vista.
Enfim, desculpa-se a confusão de Carlos Carrão, como várias outras pequenas confusões que parece ter ao longo da entrevista. Aliás, a única coisa que não oferece qualquer confusão da sua entrevista é que ainda não superou (e como poderia, depois de todos os anúncios que fez!) o facto de ter sido preterido, e apesar de não dizer com todas as letras como fez o vereador Ivo Santos, lá se depreende da entrevista, que na sua cabeça vai um “ainda vou ser presidente da Câmara.” Será que isso faz parte da por aí falada trama? Que Carrão aceitou ser segundo, com a promessa de Corvêlo sair a meio, deixando-o como presidente?
Não sabemos, e estamos habituados a que o PSD em Tomar não diga ao que vai, mas seria bom que o independente Corvêlo de Sousa dissesse claramente ao que se está a candidatar: a um mandato de quatro anos, ou ao que der?
Por fim, nessas tais equipas do PSD, onde estão os mesmos desde 1997, os mesmos que têm atirado o concelho para este amorfismo e esta banalidade a que vimos Tomar chegada, esses mesmos que nas palavras do agora também independente vereador Ivo Santos, têm “ausência de rumo, de projecto, de ideias”, a par de “peripécias, equívocos, falsidades e contradições”, são os mesmos (e os que saiem não limpam responsabilidades) que agora dizem que vem aí um mundo novo, que agora é que vão fazer isto e aquilo, e que agora, a três meses das eleições, é que apresentam planos e estratégias.

Haja vergonha.
É que só uma boa dose de falta de vergonha pode permitir às mesmas pessoas, as pessoas responsáveis pela degradação do concelho, e da ilusão que não, que está tudo bem, se apresentem novamente a eleições! Terão desta vez ao menos um programa? Ou como já vai parecendo, e como outros já fizeram, irão copiar o do PS? Lembram-se agora dos núcleos urbanos das freguesias, lembraram-se agora dessa dignidade que a todos os cidadãos é merecida; lembram-se agora do mercado; lembraram-se agora de melhor investir na cultura, de articular e aproveitar as sinergias instaladas, das associações culturais por exemplo. Enfim, passou-lhes agora pela cabeça muita coisa que em doze anos andou esquecida.
Nada disso contudo importa, a razão em Democracia está sempre do lado dos cidadãos. É a estes que importa perceber quem tem as melhores equipas, as melhores ideias, as energias renovadas, a visão e a capacidade para dar um novo impulso a Tomar. É aos cidadãos também, aos tomarenses, que cabe saber que memória têm, e que rumo querem para o seu concelho e para si mesmos. Se querem tudo na mesma, ou se querem a mudança. Eu, será escusado dizer o que penso, mas digo apenas que para mudar, Todos Somos Precisos, e dia onze de Outubro não basta ter vontade nem ter razão, é preciso ter apoio. E você, de que lado está?

sexta-feira, junho 05, 2009

Europa p’ra que te quero?

“Aqui acaba toda a terra antiga,
começa aqui a tentação do mar.
Europa - ainda era rapariga -,
Sentou-se aqui um dia a descansar.
Vinha de longe, andando com fadiga,
vinha de longe, andando sem parar...
Em frente ao mar, que o rosto lhe fustiga
logo pensou Europa em se casar.

Pediu-a p'ra mulher o Padre-Oceano.
Entre sereias, conchas e golfinhos,
as ondas lhe bordaram o enxoval.

E quando o noivo a recebeu, ufano,
estes penhascos rústicos, sozinhos,
deram os dois o ser a Portugal.”


Na mitologia, grega pois claro, Europa era uma das filhas do rei da Fenícia, uma jovem rapariga cuja beleza levou o chefe dos deuses, Zeus, a disfarçar-se de um possante touro branco e raptá-la levando-a para a ilha de Creta; e é na procura desta levada a cabo por seus irmãos que são fundadas algumas das mais importantes cidades-estado de então.
Pois Europa é o nome dado a este grande continente onde vivemos, e onde muitas vezes na nossa visão periférica, dizemos que ela termina. Acaso como no poema transcrito de António Sardinha, não achemos Portugal um seu filho.
Do nosso atlântico oceano, aos russos montes Urais, a Europa é uma urdidura de muitos países, de línguas e dialectos, diferentes sociologias, culturas distintas, uma história feita de guerras e de conquistas, de divergentes religiões e de filosofias, mãe de quase todas as ideologias, de modelos económicos, das mais dissemelhantes formas de arte, e em tudo isso, quase sempre paradigma referencial para o resto do mundo.

Hoje a Europa, em especial a Europa dos 27 (um pouco mais de metade dos 50 que perfazem o continente europeu), essa União Europeia onde estamos inseridos, é tudo isso e mais. Desde logo o chamado modelo social europeu, que tem como objectivo promover o bem-estar dos cidadãos e a sua protecção social e que coloca o espaço europeu na vanguarda dos apoios sociais nas suas várias vertentes. Poder ser também um pilar na estabilidade económica, e na defesa da paz, liberdades e garantias, são outras das suas prioridades e evidências das vantagens de fazermos parte deste grupo de países. Como estaríamos nós a resistir à malfadada crise, se não estivéssemos na União e acima de tudo no grupo de países já adoptantes do euro?

Os demais proveitos da União não carecem de grande apologia para quem quer que de bom senso lhe dedique dois minutos de reflexão. O que o nosso país evoluiu desde 1986, ao nível das infra-estruturas, da mobilidade dos cidadãos, do acesso a serviços, entre tanto mais é indiscutível, e todos já sabemos que boa parte dos fundos para o que se faz a quase todos os níveis provêem da União, assim como muitas das nossas Leis não são mais que a transposição do que emana do Parlamento Europeu. O que cá depois se faz com esses fundos e essa Leis e Directivas é que já é responsabilidade nossa…
E isto é dizer que essa ideia nefasta para a Democracia que se propagou entre os cidadãos, de que as eleições para o Parlamento Europeu que este domingo ocorrem não são importantes, é evidentemente falsa e imprudente.

Mas votar em quem, e porquê?
Nestas eleições, partidos e candidatos é que não vão faltar, que agora fazer partidos parece estar na moda (quase tanto como inventar listas de excluídos dos partidos e assim sem regras chamar-lhes independentes, mas essas modas fugazes são temáticas de outras eleições) e como tal do mais à direita ao mais à esquerda há todo um arco-íris de escolhas possíveis.
Dos que oferecem eleitoralmente mais relevância, parece-me ser a qualidade de Vital Moreira sobre os demais candidatos na minha opinião algo inquestionável para quem quer que analise de forma isenta e racional – mas importante é ter uma opinião, não tem que ser igual à minha. Sobre o papel do PS na construção de um Portugal país europeu, e na contribuição que tem dado à Europa em si, sabendo que sempre foram socialistas e governos socialistas que estiveram nos momentos fundamentais – como na adesão à então CEE, na adesão ao Euro, e na constituição de documentos fundamentais para a Europa e enaltecedores para Portugal como a Estratégia de Lisboa e o mais recente Tratado de Lisboa também me parece indubitável – mas uma vez mais, o que importa é ter opinião.

Não vou assim apelar ao voto no PS, mas tão só apelar ao voto qualquer que ele seja. Que cada um vote em quem ou como sentir a sua consciência ordenar. Votar é um imperativo de cidadania; votar é vencer uma certa imagética que vai correndo nos nossos dias e que diz que não vale pena, que a política é má, ou que a melhor forma de contestar algo é não votar. Puro e malicioso engano.
Votar é um acto em si simples, mas pelo qual tantos lutaram na história, e que na nossa há pouco tempo ainda nos é permitido. Um acto livre, mas que para todo o cidadão que quer ser consciente e desejar continuar a viver em Democracia, mais que um direito, é um dever. Afinal, quanto deixamos de exercer um direito, estamos a abrir caminho para a extinção do mesmo. Eu não desejo isso, penso que você também não. No próximo domingo dia 7 é dia de ir às urnas. Não falte, pela Europa e por Portugal.

artigo publicado hoje no jornal Cidade de Tomar.

domingo, maio 17, 2009

Com as calças do meu pai…

artigo publicado no jornal Cidade de Tomar de 15 de Maio

“Sou novo é verdade; mas, para os espíritos bem nascidos. O valor não fica à espera da soma dos anos vividos.” Pierre Corneille

Certamente todos conhecem a frase que começa com esta que a este texto serve de título. É um dos pequenos exemplos do que é uma atitude cultural enraizada de desconsideração para com os mais novos, de lhes dizer que “calma lá que ainda tens de comer muito sal”, “o teu tempo há-de chegar”, tu eras um grande homem mas é com os feitos dos que te antecedem, muito ao jeito do cliché mais usado da história dos discursos: “os jovens são o futuro de amanhã”!
A juventude. Aí está o que, da política a muitos outros sectores, todo aquele que tem um discurso para fazer gosta de ter na boca. Mas da palavra à acção vai uma grande distância. A verdade é que na prática quando um jovem chega, cuidado! Lá vem um puto para nos roubar o lugar ou, enfim, alguém a quem falta “experiência de vida”.

E no entanto, há quanto a isso duas verdades: não só há imensas provas de que a juventude ou a “falta de experiência” não são sinónimo de menor capacidade; muito pelo contrário, há, da Educação à Política, da Economia à Ciência, e em tantas outras áreas da actividade humana, imensos casos de jovens bem sucedidos e a muito fazer por si e pelos outros. A segunda verdade é que os que mais se mostram desconfiados para com os jovens, são por norma um de dois casos: os que são frustrados com a sua própria juventude; ou, mais grave, os que tendo até um caminho interessante ou bem sucedido, sentem agora outros chegar, como que a pôr fim à sua jornada.
Mas por que está este a falar uma vez mais de juventude?, perguntarão. Bom, falar de juventude em Tomar faz todo o sentido. A realidade é que numa terra cada vez mais envelhecida, deveríamos estar a procurar formas de fixar os jovens, de atraí-los até de outros concelhos. Nos dias que correm os concelhos estão sistematicamente a competir entre si, se mais não for, por uma questão basilar de sobrevivência, e os jovens são os bens activos mais valiosos e cobiçados. Numa linguagem económica, são os que garantem maior retorno a longo prazo.

Tomar, a cidade velhinha. Ou será caquéctica?
E em Tomar contudo, voltando à metáfora, hoje as calças do meu pai – ele não se importará que o diga – não me serviriam. Poderá parecer um disparate mas faz todo o sentido. Hoje, as velhas roupagens de nossos pais não servem os jovens nabantinos. E o mesmo é dizer que o passado mais recente de Tomar não nos serve; nem aos jovens, nem a ninguém. A não ser aos que – que também os há e estão no direito de pensar assim e assim quererem o seu concelho – gostam da terrinha paradinha sem grande movimento ou “confusão”, que Tomar está mesmo bom é para gozar uma pacífica reforma.
Para todos os outros, tenham lá que idade tiverem, Tomar precisa de novas roupagens, de novas ideias, de novo sangue, nova energia. Para todos os outros, os que querem trabalho, os que querem desenvolvimento, os que querem uma terra que além de ter ainda resquícios de beleza, e de ter sido importante na história; importante mesmo é que seja uma terra que lhes dê horizontes, perspectivas de futuro, sustentabilidade económica e jeitos de qualidade de vida, que proporcione envolvimento familiar e social, e as demais benesses naturalmente desejáveis, como a cultura, o desporto, o lazer e o apoio social quando necessário. A esses, a todos esses, o que com honestidade se pode dizer é que as actuais roupagens de Tomar não servem.

Bem espremidos, o que se pode retirar dos últimos 20 anos em Tomar, além das oportunidades perdidas?
Sim, o Instituto Politécnico. E falo sobretudo no aspecto de criação de emprego e o que daí advém: o IPT é em verdade o principal garante económico do nosso concelho. Fala-se do óbvio emprego para professores e funcionários, mas também dos alunos que deixam dinheiro nos quartos alugados e no comércio local. E, mesmo com todo esse valor, que trabalho relevante com essa instituição faz a Câmara, ou mesmo, que importância lhe reconhece a comunidade?
Mas, à parte o IPT, que mais foi feito em Tomar nestas últimas décadas que tenha significativamente trazido algum acréscimo a um qualquer aspecto? Nestes anos em que vimos desenvolver os concelhos à nossa volta, como evoluiu o nosso? Evoluiu sequer?

Sem novas empresas e com várias das existentes a definhar; com um enorme potencial turístico mas que em verdade nunca foi verdadeiramente aproveitado, e nada tem sido feito para que tal se consiga; com pouco já que nos distinga e nos torne competitivos para com os demais concelhos, o que há a fazer?
Urge dar o salto, fazer a mudança: de mentalidade, de estilo, de atitude. Quase tudo o que se tem feito nos últimos anos não nos leva a lado nenhum. Precisamos de novas ideias, sangue, energia, garra, vontade. Novas capacidades, novas formas de olhar o concelho, o país e o mundo. Novas formas de trabalhar e de se relacionar com as pessoas e as instituições, públicas ou privadas. É preciso uma Câmara que seja o cerne inteligente e impulsionador, capaz de motivar e liderar toda a comunidade num novo e capaz caminho, que nos retire da pasmaceira atrofiante, e da mordaça autoritária e surda com que este concelho tem sido atirado para o patamar da indiferença ou banalidade.

Há muito em potência que pode ser utilizado, essencialmente o que está cá há muito tempo e que não conseguiram estragar, e particularmente a vontade e a energia envergonhada e reprimida dos que querem fazer algo por si e pela sua terra. Quando conseguirmos efectuar essa mudança, Tomar poderá voltar a ter futuro. Para já, não tem. E aqui temos um problema geracional, sim, mas de atitude, de uma diferença entre os que querem a alternativa, esses que pertencem a uma geração que não tem idade, a geração nabantina – e os que não a querem.
A geração dos que amam a sua terra, tanto, a ponto de a querer deixar melhor para os seus filhos, ao contrário do que tem sido feito; a geração dos que se incomodam com o estado a que isto chegou, a geração do que querem fazer o possível e o impossível para converter este caminho, a Geração Tomar. Eu posso e quero pertencer a esta geração. E você?

sábado, abril 04, 2009

Roubo mas faço.

artigo publicado no Cidade de Tomar de 3 de Abril

Há dias conversava com um colega professor, quase jubilado e brasileiro de nascimento, sobre estas coisas da política e das escolhas que os eleitores fazem, contando-me ele que há uns anos um candidato à prefeitura, penso que de São Paulo, usou este slogan que aqui coloco como título. Contou-o e logo acrescentou: – tal coisa ser possível, só mesmo no Brasil!
Eu de imediato pensei duas coisas: a primeira dirão ser pouco importante, que também nós muito usamos a expressão “só neste país”…; a segunda que “só mesmo no Brasil”!? Então e cá? Como pensam afinal os portugueses?
Bastaria considerar os casos mais flagrantes, como Felgueiras, Gondomar ou Oeiras, e outros por aí menos mediáticos…, para imaginar que um slogan destes em Portugal era bem capaz de ter muito sucesso. A mim mesmo, vários cidadãos me disseram na fase anterior às últimas eleições autárquicas, que o PS não poderia vencer em Tomar porque o nosso candidato era demasiado sério! Há mesmo muito quem pense e diga que se o Presidente for alguém que não se saiba “governar”, também não presta para Câmara. E eu, enfim, fico sempre atrapalhado quando me fazem afirmações destas, porque não sei francamente o que se responda a isto.
Vem isto a propósito de escolhas e de perfis, e da importância dos mesmos, assunto sobre o qual já noutras alturas escrevi. É que a Seriedade, a Lealdade a Tomar, ao Projecto e à Equipa; a Capacidade de Ouvir e Decidir; a Honestidade, a Visão, a Determinação, a Coragem para enfrentar dificuldades, a integridade pessoal e a defesa de Valores, são precisamente os predicados que em Tomar o PS há muito definiu para as suas escolhas.
E esses são os que encontrámos no Arquitecto José Becerra Vitorino, o candidato socialista à Câmara de Tomar, aquele com o qual sabemos ter a única alternativa ao descalabro a que Tomar assistiu e vai assistindo. Esta foi a escolha do PS, e foi a escolha certa.
Sim, não agradará a todos, isso já sabemos. Desde logo aos que desejavam estar no seu lugar, claro. Depois é como tudo: se é gordo devia ser magro, se baixo é porque devia ser alto, e por aí até coisas bem piores. Não é contudo o que importa, aquilo que é relevante é o que antes enunciei. Mas é uma coisa séria esta de ser português e ó, tão nabantina: o tanto gostarmos de estar contra, que até há quem disso faça refinado desporto:

Falar mal do próximo.
Olhar-se ao espelho e perguntar: sou ou não sou melhor que o meu vizinho? Sou sim senhor! Infelizmente, até alguns senhores que andam ou gostavam de andar na política são assim, achando-se a melhor coisa que esta terra já conheceu. Assim ao jeito do “sou tão bom tão bom, ando tão inchado, que todos me devem”. Todos conhecemos dessas figuras…
Imune contudo a tudo isso, no seu tempo, sem cedências às costumeiras pressões, marcando o seu ritmo, e já agora, o dos outros, o PS escolheu o seu candidato. E sim lembremo-nos, o ritmo dos outros: um candidato correu para os jornais, dizendo que “obviamente” era o que todos sabíamos; outro que o PSD em Tomar tinha UM candidato capaz, mas que acabou por ser número 2; enquanto que o PSD oficial disse estar à espera do PS para fazer uma sondagem. Coisa séria, se eu fosse militante daquele partido estaria felicíssimo…
Enfim, outras modas. Ficamos sem saber se sempre houve sondagem e o que disse, mas deixemo-nos disso, que eu não gosto de falar da casa dos outros por muito que em Tomar, tantos se achem versados para do PS falar naquilo que só aos militantes e aos seus dirigentes diz respeito. É aliás estranho o quanto que em Tomar alguns comentadores explícitos e outros mais sub-reptícios, atacam o PS. Será o PS responsável, pelo menos nos últimos 12 anos, pela gestão do Município e seus “anexos”; ou será porque se ataca tudo o que se tem ódio ou medo?
Já o vimos mas vê-lo-emos mais, comentaristas implicados a vaticinar os maiores disparates ao PS de Tomar, quando os que o fazem por norma desejavam sim estar no seu lugar (no lugar do seu cabeça lista, no lugar do seu presidente, no lugar do seu vereador, dos seus dirigentes…). E não se percebe essa angústia, é afinal a coisa mais simples da Democracia:

Basta ser militante, concorrer a eleições, e ganhá-las.
Mas imunes, escrevi atrás, às muitas pressões – algumas legítimas, como por exemplo a comunicação social que sempre tenta ter notícias frescas; outras ilegítimas, que tentam influenciar ou condicionar por vezes de formas nada éticas – o PS tem elaborado o seu projecto, escolhido e continua a escolher os melhores representantes para as várias listas: sem se fechar sobre si próprio, mas também sem correr atrás de ninguém, baseando-se sempre no princípio de que a Política se faz com afirmação e disponibilidade, e que essa disponibilidade terá sempre de ter como premissa o trabalho individual em prol do colectivo, e nunca o seu reverso. Com a calma e a serenidade que compete a um partido responsável, com história e regras, onde os seus dirigentes sabem que estão sempre a prazo, que antes de si outros tiveram, e depois outros virão; sem dependências de projectos pessoais, valendo em primeiro lugar pelos valores essenciais que defende, e só depois pelos que a todo o momento estão disponíveis para os defender. Assim se trabalha com Ideologia, Humildade, Ética e Responsabilidade.
O caminho está então traçado: Projecto, Equipa, Alternativa – a necessária à mudança que desejamos para o concelho que amamos. A mudança que acreditamos ser largamente desejada.
Talvez no PS, admito-o, estejamos enganados. Talvez afinal não seja necessária uma mudança, ou talvez os tomarenses não a desejem. Talvez esteja tudo bem em Tomar, e sejamos nós os pessimistas, os derrotista, os alheados da realidade ou os fabricantes de realidades virtuais. Felizmente, bem lá diz na escadaria dos Passos do Concelho, o Povo é Quem Mais Ordena, e todos têm o mesmo peso na decisão. Os que votam por um lado, os que votam pelo outro, os que não votam. Na essência, Todos Somos Tomar. Eu sou dos que acham que é tempo de mudar para algo verdadeiramente novo, e temos todos uns meses para pensar nisso. Saberemos fazê-lo com Seriedade?

sexta-feira, agosto 22, 2008

obras à portuguesa...

... é o que parece ter acontecido com este blogue, pois reinaugurado há mais duma semana, só agora houve tempo e vontade para fazer os acabamentos, o principal deles os comentários, uma vez que o blogue não estava a querer aceitá-los. Mas cá estão finalmente.

E por falar em comentários, ao último artigo que escrevi para o jornal "Fazer bem faz mal", que está uns posts mais abaixo, três comentaristas responderam ao desafio e escreveram quase tanto como eu no artigo, que sinto dever-lhes resposta. Como além disso passou algum tempo, faço-a aqui mesmo na página frontal do algures.

Sucintamente só algumas questões. Primeiro, caro Francisco Santos, ninguém me pede, pelo menos da forma como alvitra, para escrever sobre isto ou aquilo, ainda que cidadãos anónimos por vezes me sugeriam assuntos, que eu ainda assim raramente sigo, até porque só escrevo quando quero e não é assim com tanta regularidade. E não, não me pagam por escrever em qualquer jornal, mas é normal a confusão. Há muitos a pensar que sim.
Depois, não sei bem que responder ao seu comentário uma vez que ele é muito incoerente: ora me acusa de escrever "um hino à estupidez", como depois diz que sou "alguém com grande vontade de mudar as coisas"...
Francisco, isto lhe posso dizer, quase tudo o que escrevo tem um fim último, tentar levar aqueles que leiam, a pelo menos para si mesmo, fazerem uma análise crítica ao que se passar à sua volta. Já era muito bom. E sublinho sempre isto: criticar não significa apenas dizer mal.

Depois, caro Virgílio Alves, eu concordo com quase tudo o que diz, grande excepção feita às conclusões e a uma outra situação. Por exemplo, concordo absolutamente com a introdução do Inglês no primeiro ciclo; globalmente acho que nunca se fez em Portugal reformas tão profundas ainda que em muitos caso fosse preciso mais. Será sempre preciso mais.
Não posso de forma alguma concordar com a ideia fácil mas falsa de que os governos do pós 25 de Abril foram maus e a ideia a essa inerente, de que o Portugal de antigamente é que era bom, aí é que se geria bem, aí é que não havia "tachos", nesse tempo é que é que era bom viver... Sim eu nasci já em Democracia, e não tenho qualquer dúvida, por muito que tenham havido governos melhores ou piores, que uma pequena mas séria análise prova o contrário de qualquer teoria semelhante a essa.
E depois Virgílio, respeito a sua provável militância, mas não esqueça que o PC também já foi Governo por um tempito, e bem sei que eram tempos difíceis, mas parece que não correu lá muito bem.
Acha mesmo que se tivéssemos o PC ou o BE no Governo - acredito que fosse diferente - mas seria melhor?

Por fim, caro João Passos, também concordo com muito do que diz e partilho de alguma da sua utopia, mas há coisas que não são realizáveis, como acreditar que pode, ao menos por muitos anos ainda, existir Democracia sem partidos. Os partidos são com todas as suas vicissitudes, espaços de ideologia, espaços reconhecidos, com regras, e ainda que com falhas, espaços onde se faz seriação de pessoas, ao nível da sua competência, credibilidade, seriedade, etc.
Muito mais em risco coloca a Democracia esta moda de se dizer mal da política, dos políticos e dos partidos apenas porque sim, porque é "normal" dizer-se. Muito mais em risco coloca a Democracia, essas modas "independentistas" onde projectos pessoais, sem qualquer controle ou os predicados que enunciei para os partidos, seguras apenas por uma espécie de mediatismo independentemente das razões que o criaram, que permitem que uma só pessoa possa desvirtuar todo o que é o normal equilíbrio democrático numa qualquer comunidade.
E mesmo para acabar João, achar que os computadores portáteis ou o Simplex são "sinais de má gestão e administração" é, para ser gentil, não querer encarar o mundo em que vivemos, não será?

sexta-feira, agosto 08, 2008

Fazer bem faz mal

artigo publicado (com letras pequeninas :), no jornal Cidade de Tomar de hoje.

Nitidamente o Governo da República está amaldiçoado, é que esta coisa de decidir e fazer só trás chatices. Pronto, uma boa parte das pessoas que por acaso tivesse começado a ler este texto, acabou já aqui, na primeira linha; «ora, se este tipo está a dizer que o Governo decide e faz coisas não é bom da cabeça… Ah!, pois, é do PS, só podia!»
Contudo, para você que está disposto a conceder o benefício da dúvida, continuemos.
Inicio estas palavras a propósito da última que me chegou ao e-mail. Para os que não estejam totalmente embrenhados nas férias e demais delícias de verão, e salvem algum tempo para acompanhar as notícias, terão certamente ouvido falar no “Magalhães”. Sim, o computador portátil português, produzido em Matosinhos, que cria riqueza, postos de trabalho e afins, que o Governo vai distribuir a 500 mil alunos do 1º ciclo, e que vai muito provavelmente ser também exportado para o resto do mundo.
Se isto não é o Choque Tecnológico, não sei então o que possa ser; permitir aos jovens desde bem cedo a manipulação destas tecnologias que passarão para eles a ser tão banais como para mim era andar de bicicleta, apostando ainda no desenvolvimento nacional destas tecnologias com tudo o que tal acarreta.
Porém claro, já circula na internet que «é tudo uma intrujice», que «é um erro geracional», que esse computador «não é nada revolucionário», que não, não se está a desenvolver nacionalmente esta indústria, e os “por aí fora” do costume. Que dizer?!
Aliás, o mesmo aconteceu no “programa e.escola”, quando o Governo inundou o país com computadores portáteis, não só permitindo a sua aquisição a muitos alunos que não o poderiam ter ou aos professores que por prática imposição profissional dele necessitam, mas igualmente obrigando à óbvia descida de preços dos demais, logo se ouviram os «Ui, porque não são topo de gama, porque se vende gato por lebre, porque se tem de pagar o serviço de internet…» Enfim!
Mas continua. O Governo, no âmbito do “Simplex”, colocou muitos serviços totalmente disponíveis através da internet, investe nas Lojas do Cidadão (em Tomar não temos que a Câmara não quer, vá-se lá perceber!) e nos balcões únicos, como este último o “Casa Pronta”, a partir do qual num só balcão e duma vez, o cidadão pode tratar de toda a papelada relativa à compra de casa. Claro que para tudo isso se vai dizendo «mas como é que pode ser, que isso é lesivo dos interesses e vão ser enganados e não estão protegidos e blá blá blá».
Se cria o “Novas Oportunidades”, para chamar alunos jovens que saíram da escola demasiado cedo, e outros a quem não foi permitido estudar, também para qualificar a experiência adquirida, «Ai senhor, porque se está a banalizar o ensino, e a dar diplomas…» Nessa matéria aliás temos o clássico dos exames nacionais, se são fáceis «Ai Jesus!», se são difíceis «Ai nossa senhora!»
O Governo tira o monopólio dos medicamentos às farmácias ou investe nos genéricos, diminuindo os preços, «Epá, cuidado, porque as pessoas vão ser enganadas, não estão protegidas…» Aliás, mesmo agora que se anuncia a diminuição do preço dos genéricos em 30%, lá vêm os senhores das farmácias que não pode ser, que é um risco e é isto e aquilo…
Durante muito tempo, se foi dizendo que na Função Pública não existia controlo, entrava-se e pronto era só deixar o tempo passar e levar as coisas com calma, os próprios sindicatos diziam que era preciso distinguir os melhores, que era preciso novos mecanismos… pois. Cria-se um novo sistema de avaliação (SIADAP) e pronto «Onde é que já se viu, ter de prestar contas, ser avaliado, seriar as pessoas, só permitir que alguns subam na carreira…»
E tanto mais. O investimento nas energias renováveis que nos coloca no topo da Europa, não interessa. Novas barragens, «Mas para quê que desperdício! Que megalomania!». Portugal vai ser plataforma mundial do lançamento em massa do carro eléctrico, «Oh, ganhem juízo, isso nunca vai acontecer, nem interessa nada!»
Antes não havia fiscalização, era tudo “à vontade do freguês”; cria-se a ASAE que trabalha a sério, e pronto, é a “perseguição”, a “falta de respeito e sensibilidade”, o “abuso de poder”. Muitos outros exemplos haveria, mas por agora chega para a conclusão possível: ou nunca estamos bem com coisa nenhuma, ou

Tudo é bom desde que não nos toque no umbigo.

Durante três anos, com Durão Barroso e Ferreira Leite, depois com Santana e sempre com Portas, os portugueses tiverem um Governo que por entre as imensas trapalhadas, a venda absurda de património, a venda por tuta e meia de créditos da Segurança Social, entre outras, sempre a falar da tanga e do combate ao défice, acabou por o duplicar. Antes, durante seis anos o Governo de Guterres, acusado, a meu ver injustamente, de reunir demasiado e decidir pouco. Pois agora, temos um Governo que decide e faz, e no entanto a muitos parece que também não agrada. Confunde-se (sim, se calhar uma vez ou outra com alguma razão), a convicção e determinação de Sócrates com arrogância, e critica-se tudo, na maioria das vezes porque se ouviu dizer, porque é hábito dizer-se, ou totalmente sem saber do que se está a falar. Sim, somos portugueses, o que dizer mais?
Talvez, dizer apenas que, às vezes, o que apetece mesmo é não fazer nada; dá tão menos chatices não é? Ou, no lema confesso de um meu professor de curso, ilustre cronista dum diário nacional, e ex-Secretário de Estado de Cavaco, o que as pessoas no fundo pensam é: “Não te rales não te entales, a responsabilidade vem sempre de cima, e nunca ninguém foi condenado por não fazer nada”.
Ora, bem vistas as coisas, e até porque o antes tão invocado “deus” está cada vez mais em desuso, o que está mais acima é o GOVERNO, seja ele qual for, por isso está bom de ver que a filosofia é simples:

A culpa é sempre DELES. E tudo o que ELES façam, pois já se sabe, está mal feito e é para NOS tramar!

Esta concepção serve para qualquer outra coisa: uma associação, a empresa onde trabalhamos, o chefe seja lá do que for, ou aquele ou aqueles, aquela entidade que em qualquer momento detenha o poder de decisão (hum, até o presidente de um partido…). E esse é afinal o desporto favorito, falar mal, se não de todos, ao menos de quem “manda”. Mas em verdade, em qualquer sociedade, em qualquer comunidade, em qualquer organização, em qualquer sistema humano minimamente estabelecido; ora, até nos animais que se constituem em grupos; sempre tem de existir quem exerça num determinado momento, o poder de decisão, por muito interessante que seja a ideia do consenso e da deliberação colectiva. Onde quer que duas pessoas se juntem, sempre há-de chegar o momento em que têm opiniões diferentes.
E a essa capacidade caro leitor, de decidir entre opiniões divergentes, tomando portanto opções, chama-se Política. Assim, com letra maiúscula, porque é uma arte nobre.
Por mais idealisticamente aprazível que seja a imaginação de uma empresa sem chefe ou sem administração, de associações sem presidente ou direcção, de sociedades sem políticos ou governos, a verdade é que isso não existe. Se tal acontecesse o Homem não teria deixado as cavernas, e a simples assumpção da possibilidade dessa existência é caminho para sistemas, esses sim, de total ausência da partilha de decisão e concentração total da mesma: ditaduras. É para lá que caminharemos se continuar a perdurar e a crescer esta ideia consumada de dizermos que a Política não serve para nada, que os políticos não prestam, que os partidos nada servem e neles não queremos intervir. Essa relutância na participação cívica e política, essa generalizada má vontade para com os que elegemos é a negação da Democracia, e um passo largo para a perca da mesma; esse que talvez não seja o melhor sistema, mas é até hoje o mais perfeito que temos, sem vislumbre de outro.
Esta errada ideia do que é a Política, esta repulsa para com ela, para com os políticos e os partidos, esta permanente depreciação das governações muitas vezes leviana e constituída em desconhecimento, esta escassa vontade de participação e a mitigação das ideologias, a ignorância dos órgãos de soberania, do que fazem como e porquê, e acima de tudo, a não consciencialização da sua imprescindível importância, é também mostra evidente, das lacunas da educação e formação de um povo, do avanço e desenvolvimento cívico e a todos os meios de um país.
Mas contudo caro leitor, você que terá sido dos poucos que leu este texto até ao fim, dir-me-ia muito provavelmente que não tenho razão, e que só o digo porque afinal, também sou desses, dos políticos. Não é verdade?

domingo, junho 29, 2008

Delírio de Verão

artigo publicado no jornal Cidade de Tomar de 27 de Junho

O verão achega-se finalmente, possante, quente, e em Tomar o reboliço da época sente-se em cada esquina.
É o corrupio dos turistas subindo e descendo as calçadas da cidade para o Convento. Cá por baixo na cidade, é vê-los aos magotes, apinhando as esplanadas, fazendo filas nas lojas.
Nos cafés e nos restaurantes não há “mãos a medir” e já não há tomarenses que cheguem para tanta vaga de emprego. Está bom de ver porquê: os eventos desportivos, o cartaz de espectáculos e outros acontecimentos culturais, a par com a animação de rua, ou os roteiros turísticos específicos, sobre os Templários por exemplo. E a “cidade velha”? Ui!, a cidade velha, que chamariz! E ainda há quem diga que a dita “revitalização do centro histórico” que a Câmara tem levado a cabo, não passa de substituir pedras por pedras piores… que ingratidão!

Que tão pouca compreensão tendes pelos misteriosos desígnios da nossa Câmara!

Bom, Tomar faz jus ao seu eclético e nobre passado, e hoje é um destino de top em qualquer agência de viagens, ou na lista de destinos de qualquer português.
Os hotéis e as residenciais estão cheios, e no parque de campismo não cabe nem mais um saco de cama! Eles são casais apaixonados, eles são grupos de jovens à procura de diversão, ou excursões de jovens reformados relembrando a cidade de que ouviram falar nos tempos de escola. De todos podemos encontrar na enchente desta que só podia mesmo ser uma cidade turística.
Os tomarenses esses, sempre que têm uma folga, preferem a frescura de uma das suas praias fluviais. No Nabão ou no Zêzere, é só escolher a mais a jeito. Todas elas são referência na região: pelas comodidades, como os barzinhos de apoio, ou a segurança, ou os vários equipamentos para a pequenada. Até na cidade, todo o canto verde ou a formosa sombra é ocupada por gentes que repousam deslumbrando-se com os prodígios da nossa terra.
A Mata então é o ex-libris, ali passeiam os avós com os netos, os mais desportistas são às centenas no dia-a-dia aproveitando o ar puro, os jardins da entrada são cobiça para as aprimoradas donas de casa, e num ou outro doce recanto, enamorados pares aproveitam o embalar dos pássaros, para melosas juras de amor.
Ah! O encanto desta terra…
Bom, e os mais jovens, já se sabe, gostam de fruir do calor das noites. E Tomar é o destino predilecto dos boémios de toda esta região, por onde a nossa zona dos bares é continuamente mencionada. Esses competem avidamente entre si para as mais badaladas festas, chegando mesmo uma vez ou outra, a envergonhar os aprumadinhos da capital.

Ora, quando tudo se tem já, que poderemos nós querer mais?

Chega-se ao ponto de boa parte dos nabantinos lamentarem os dias em que se desloquem à praia ou a qualquer outro sítio, com o espírito no que estarão a perder por cá.
Nesta altura, é como se os habitantes triplicassem ou quadruplicassem, tal a quantidade de forasteiros que procuram o concelho e por cá ficam dois, três, muitas vezes mais dias, sendo sabido que quase todos, especialmente os nacionais, acabam por voltar.
O Convento olhando como nos tempos imemoriais pela cidade lá de cima, bate recordes de visitantes e os outros monumentos, um pouco aproveitando a onda, são de tal maneira procurados, que às suas portas se acercam vendedores de todo o tipo de souvenirs, artistas de rua, pintores e caricaturistas, vendeiros de flores, bolos, licores,… enfim, um mar de gente aproveitando aquele euro a mais que sempre pesa na carteira do veraneante turista.
Quando, não sem um olhar já de saudade, os visitantes nos deixam, vão sempre carregados: ele são postais para os amigos, a t-shirt para a irmã que não pode vir, os doces para os avós, os bonequinhos para os netos, não fossem já as iguarias levadas nos aprazidos estômagos dos próprios…
Quando partem vão infimamente refastelados. Cheios de recordações para fazer inveja aos amigos, e os nabantinos esses, inchados de orgulho, na referência e animação que é a nossa augusta terra.
Reconhecendo esse orgulho que por vezes nos cega um pouquito, admito ter exagerado qualquer coisita neste relato… mas não estou muito longe da realidade, ou estarei?

sexta-feira, abril 25, 2008

Volta Salazar!

artigo publicado no jornal Cidade de Tomar de 24 de Abril

Chegados que somos a mais um feriado, que é, para a maioria, o único ponto de interesse desse dia de Abril que aí está, há ainda quem, mais que noutros momentos, relembre essa figura que convoco em epígrafe e aquilo que representa: a dita dura.
Bem sei que quando nesse dia vinte e cinco do quarto mês do ano de setenta e quatro do século passado, se colocaram cravos onde balas de costume uma ou outra vez saíram, o senhor já tinha caído da cadeira, pois que se estava na marcelista primavera, que em todo caso dizem, era feita de uma espécie de um morno a caminho de gélido.
Mas não me culpem a mim, tantas vezes acusado desse crime de que me confesso, não ter vivido nessa época (adoro aliás esse argumento fascinante e inteligente do: – quem és tu ó miúdo, que da tua idade já estava farto de lutar contra o fascismo?!), por agora aqui nomear o senhor que tão bem lá estará, no céu ou no inferno, consoante o gosto e a devoção.
A verdade é que, “condenado” por esse tempo não ter experimentado, e tantas vezes ouvindo dizer a pessoas certamente esclarecidas que nesse “é que era bom”, que por vezes me ponho a adivinhar como fosse afinal.

Nesse tempo a sociedade assentava em valores muito mais consistentes, as moçoilas casadoiras tinham aulas de economia doméstica e eram hábeis na costura. E ora pois, assim é que estava bem. Se as mulheres tivessem todas em casa já não havia desemprego, não havia por aí tanto rapaz de calças rotas e camisas por passajar, nem a malta perdia tempo nas esplanadas a ver as mini-saias!
Depois diz-se que evoluímos, veja-se por exemplo aquela do Plano Estratégico para a cidade de Tomar que a câmara agora aprovou, onde se diz, lá noutras palavras mais rebuscadas, que se abrirmos mais lojas no centro histórico estamos a elevar as senhoras à igualdade…
Nessa altura faziam-se as conversas em família trazidas por esse Caetano de primeiro nome Marcelo. Já hoje seria impensável que algum Marcelo nos viesse pespegar com teorias com as quais fosse muitas vezes claro nem o próprio acreditar.
Agora, veja-se lá bem!, a malta até se pode divorciar se um dos conjugues estiver farto do casamento! Mas onde é que isto já se viu, que libertinagem!
Depois dizem que nesse tempo não havia alunos mal comportados – nenhum, garantiram-me já, se atrevia a levar telemóvel para as aulas, e igualmente algum sabia mais, por exemplo, de computadores que o seu professor.
E os políticos? Tudo da melhor água, primeiríssima linha, duma qualidade que nem valia a pena haver eleições porque melhor… impossível!
Nessa altura, por exemplo numa câmara, as decisões a tomar competiam ao chefe e pronto, ninguém mais era importunado com isso, fosse implicado com isso fosse um qualquer outro indivíduo. Hoje? Inventaram esta coisa de programas eleitorais, referendos, períodos de discussão pública, audições às entidades, auscultação dos cidadãos – só complicações!
Graças a Deus que em Tomar a tradição ainda é o que era! Programa eleitoral?, isso não são mais que pormenores – o que é que interessa o que se pensa fazer, se o cabeça de lista for jeitoso e bem falante? Parque de campismo, fecha-se, então ninguém vai acampar na sua terra! Mercado… vamos mas é ver se o deitamos abaixo enquanto ninguém vê, depois quando lá não estiver já ninguém dá por falta! Carta Educativa, fechar escolas… pois claro, é como queremos, pôr os miúdos a levantar-se uma hora mais cedo só faz é bem, e vão conhecer outras terras! Plano Estratégico para o futuro do concelho… ora, só nós que é que sabemos, o povo nem de estratégia futebolística, vamos agora pedir-lhes opinião! Apoio aos investidores, criação de riqueza, promoção de emprego, fixação dos jovens… deixem lá isso, depois faz-se aí mais uns passeios para a terceira idade e fica tudo bem, isto precisa é de festa!
E falando em festa, os bonitos costumes que têm acabado? Já não se vêm por aí daquelas lúcidas homenagens a presidentes de junta ou de câmara, por fazerem mesmo que com muito atraso, aquilo que é a sua função! Felizmente que temos a freguesia dos Casais, valha-nos isso…

Isto anda tudo ao contrário! E depois vêm dizer que se lutou muito pela Democracia, e pelo direito de votar, e ter opinião e não sei quê mais… mas para quê, se isso é uma chatice tão grande?! É que ainda por cima fazem isso quase sempre ao domingo! Onde é que já se viu, profanar assim o dia de descanso, ainda mais em épocas de saldos ou de mergulhos! É que ainda se fosse de semana e se faltasse ao trabalho…
Há coisas no entanto que não mudam, como significados das palavras, como desporto que em Portugal quer dizer futebol, ou religião que significa por cá igreja católica. Mas desta diz que agora a sua acção está diferente e que o tanto que pregam, são mesmo pregos nos templos antigos. Em Tomar causou alguma polémica, mas não vejo porquê. A igreja já está velha, e ora, a pedra é como o vinho, precisa de abertura para respirar!
Outras por outro lado são muito diferentes, as câmaras por exemplo, privilegiam a educação, a cultura, o apoio social, ao invés da obra pomposa, do penacho, da fachada. E os cidadãos sabem dar valor a isso…
Como as coisas mudaram… não é que agora até encontramos presidentes de junta ditos comunistas e eleitos por esse partido, a fazer o jeito a câmaras de direita em matérias essenciais como a educação? Longe vai o tempo da Paz, o pão,… a… como era mesmo a lengalenga?

Bom, fale-se agora a sério. É evidente que coisas há que são intemporais, mas o que quero evidenciar é que há matérias em que em verdade pouco evoluímos desde esse tempo, e outras até, onde parece que voltamos atrás. Pessoas boas e más, mais ou menos responsáveis, mais ou menos competentes sempre houve e sempre haverá. Há, contudo, uma diferença substancial. Se noutros tempos as coisas aconteciam sem que tal se pudesse discutir, mas porque alguém o decidia; hoje, acontece porque todos deixamos que aconteça, porque muitos de nós estamos convencidos que o fantasma do tal Salazar por aí anda ainda, porque se tem medo ainda de criticar, ou porque se é comodista, porque às vezes não apetece votar, mesmo que em branco; porque todos no conjunto da comunidade que somos, aqui ou ali, e muitas vezes, nos demitimos dos deveres e direitos, e das responsabilidades mais basilares que nos garantam a Liberdade e Democracia possível. Porque a maioria continua a preferir que por si decidam, e persiste ainda a bajulação aos “senhores importantes”. Porque deixamos que seja verdade entre a colectiva cegueira que seja rei quem tiver olho, porque criticamos muitas vezes sem seriedade, ou nada fazemos para alterar as coisas, gostamos de dizer mal de qualquer coisa, de quase tudo, de ser do contra nas palavras – e no entanto, nos actos, quase sempre a favor.
Por vezes parece que a aurora da Liberdade, transformou a falta total de Liberdade em liberdade total. Isto não pode acontecer, é preciso a assumpção de que a Liberdade total de alguém será sempre a liberdade reduzida de outrem.
Só quando percebermos e praticarmos, que a Liberdade e a Democracia, assim como uma existência social fraterna, solidária e progressista, em apego à Verdade e à Justiça, não são chavões adquiridos mas conquistas para as quais temos individual e colectivamente, caminhos contínuos a percorrer, enquanto seres sociais de Cidadania consciente e plena, então Abril será em Portugal um mês com significado, quer existíssemos quer não, quer não lembremos já, o que era esta país dito adiado antes de 1974.
A bem da nação!...

domingo, dezembro 16, 2007

Ossos Mudos

(artigo publicado no Cidade de Tomar de 14 de Dezembro)
“O passado é a única realidade humana. Tudo o que é já foi.”
Anatole France


Há verdades inegáveis e por todos conhecidas. Que quando em Tomar se faz um buraco qualquer coisa do passado aparece é uma dessas verdades. Numa cidade com a sua importância e dinamismo ao longo da história não é novidade, nem poderia sê-lo, pois com a especial predilecção para que por cá se façam buracos, disso somos repetidamente lembrados.
Esqueletos dos que por cá viveram, restos de casas onde moraram, muros, utensílios que usaram, pequenas relíquias que os adornaram, ou mesmo as riquezas que acumularam, tudo vai aqui e ali aparecendo à luz novamente, mesmo que por vezes por curto tempo, como que para um fôlego breve, antes de novo enterro.
Ora, o que me choca em primeiro lugar, é que há ainda quem ache que estes achados são apenas empecilhos às obras e ao bom decurso destas, e que melhor mesmo era ignorar e destruir tudo o que aparecesse, antes que os chatos arqueólogos dessem por isso, (e todos sabemos que às vezes…)
Mas, não prepara o futuro quem ignora o seu passado, ou, “conta-me o teu passado e saberei o teu futuro”, como diria o sábio Confúcio; e realmente o futuro de Tomar, se não for já o seu presente, vai indicando ser muito menos risonho que o que já que foi.
Além dessa mentalidade obsoleta, que como em tantas outras matérias demora a mudar, a outra questão a isto relacionada é a que me assalta com mais premência: o que acontece afinal com todos estes achados, ou seja, aqueles que são passíveis de retirar dos locais onde são encontrados, as fotos que se tiram nos locais, os mapas que do arcaico se constroem, assim como o que estas descobertas vão completando no puzzle da nossa história e do nosso passado?
Numa cidade que diz ser de cultura, com um importante lugar na história nacional e mesmo com alguns grandemente ignorados contributos para a construção do mundo contemporâneo e um passado imensamente rico, porque não temos ainda um local onde seja possível ter contacto com essa história, onde os cidadãos tomarenses pudessem conhecer mais sobre si mesmos, onde as crianças pudessem aprender, e que pudesse igualmente ser mais uma oferta turístico/cultural?
Não teremos capacidade para isso? Não teremos dimensão? Não teremos qualidade?
Essa incapacidade está bem demonstrada no fórum romano por detrás dos bombeiros.
Ali nasceu há séculos uma cidade, aquele era o seu centro, o coração dum lugar no mundo que haveria de contribuir para que outros mundos esse mundo tivesse; e no entanto, para a maioria de nós, não passa dum monte de pedras meio enterradas e escondidas por entre ervas vadias.
Esse local, há tantos anos à espera de resolução, falado de quando em vez, mas em verdade esquecido a maior parte do tempo, é o melhor lugar, a exemplo do que acontece noutras urbes, para instalar essa espécie de museu arqueológico e da história de Tomar e seu concelho. Nada extraordinário, há soluções arquitectónicas já várias vezes utilizadas noutros locais que permitiriam manter visível e preservados os “achados” do fórum, e acima dele ter instalações que pudessem acolher os vestígios da nossa história. Também aqui não é preciso inventar nada, basta, com bom senso e vontade, seguir os bons exemplos.
Nestes três mandatos do PSD na câmara de Tomar nunca houve qualquer mostra credível de intenção de resolver o assunto, como aliás acontece com toda a política cultural, e mesmo com a verdadeira promoção turística.
Talvez seja fácil de perceber porquê, aparentemente estes temas, por muito que necessários, não dão votos. Rotundas e passadeiras, aparentemente dão, a ilusão das obras parece que também. Por muito que de forma geral todos as critiquem.
Hoje, cada vez mais, a política e a gestão autárquica passa pela “construção” de cidadãos no mais puro do termo, ou seja, com pleno conhecimento, exercício, e respeito pela Cidadania; e pela edificação de cidades, naquilo que são sinergias, motivações, orientações, projectos de futuro para espaços sustentáveis e responsavelmente planeados, onde essa cidadania plena seja, senão já uma realidade, um caminho que se perspectiva.
Essa é a visão e o arrojo dos políticos capazes, que sabem criar e respeitar prioridades e olhar não para o imediato mas para o que projecta no futuro. Hoje, e para quem dê atenção à história sempre foi, à luz de cada época, o cunho duma política com maturidade.
Mas, tal como no desenvolvimento individual do ser humano passamos da fase das operações concretas na infância, para a das abstractas na adolescência, assim é também na política, e a autarquia de Tomar não deixou ainda a fase dos “legos”. Só o concreto e imediato da “política do betão” é prioridade. E mesmo aí, muitas vezes, mal.
É por isso que intitulei este texto com uma mentira, em verdade não penso que os ossos que vamos descobrindo sejam mudos, acredito sim que nós é que nos mostramos surdos para ouvir o que têm para nos ensinar; ou então, paradoxalmente, porque não sabemos perspectivar o futuro, dizem-nos que somos a prova de razão das palavras do escritor Anatole – só o passado vale alguma coisa para Tomar, tudo o resto…

domingo, novembro 25, 2007

A Tasca do Cidadão

artigo publicado no jornal Cidade de Tomar de 23 de Outubro

Caros concidadãos, gostaria hoje de fazer aqui um público reconhecimento do meu desconhecimento e forte insipiência política. Não sei se por ser mais ou menos jovem, não sei se por ser presidente da concelhia de um partido político, mas honesto será dizer, que já vinha julgando pouco poder ser surpreendido com algumas das coisas que se fazem em política. Tomar é, no entanto, uma escola sublime, e queria aqui humildemente agradecer ao PSD que na câmara vai fazendo um esforço de quando em vez ter tempo para nos governar, por mais esta importante lição, oferecida na última reunião de câmara de Outubro.
Vinha eu pensando, mas será culpa minha certamente, que o primeiro grande objectivo de um político, em especial dos que exercem cargos públicos como aqueles que compõem uma câmara municipal, fosse exactamente o de servir os cidadãos, procurando os melhores projectos e os preferíveis instrumentos de resolver os seus problemas e agilizar a sua vida. Mas que tontearia a minha, desculpai-me estas imaturidades de ser novo, certamente que não passa nem perto disso!

Há meses, que estes chatos do PS em Tomar, aborrecem inoportunamente a câmara para que inicie os procedimentos afim de poder vir a ser instalada no concelho uma Loja do Cidadão, e afinal a câmara PSD vem demonstrar e certamente bem, com o chumbo da proposta, que Tomar não precisa disso. E em verdade, reconheçamos, têm razão! Para quê afinal, para perdemos o prazer de correr sei lá quantos serviços e nos contentarmos em fazer tudo num só sítio?
Como sou inexperiente! Se me perguntassem há umas semanas, eu diria seguro que votar contra a instalação de uma Loja do Cidadão era algo que não lembraria ao pior dos políticos. Como estava enganado. Como se agora, aquilo que facilita a vida às pessoas fosse o melhor para elas! Como pude acreditar em tais fantasias!?
Ora pois, até que está bem vista a perspectiva da câmara de Tomar, pois se podemos passear para resolver um assunto, para que havíamos nós de o resolver à porta de casa? Claro, é sempre melhor ir a Lisboa, a Santarém. E mais, deixemo-nos de hipocrisias, se Ferreira do Zêzere teve uma coisa primeiro que nós, é por que aquilo não pode ser bom! Além disso, quem é que disse que ter o Bilhete de Identidade no próprio dia em que se pede é positivo? Então e aquele gostinho bom da espera, até nos faz apreciá-lo mais quando chega, e esse é um prazer que não nos podem tirar. E então as comparticipações da ADSE, já viram se em vez dos três meses chegasse ao fim de uma semana? Isso é que era estragar dinheiro!
E depois, demasiadas facilidades fazem mal às pessoas, já viram se agora de cada vez que se perde a carteira, só precisássemos de ir a um sítio para tratar de todos os cartões? Vai que se podia dar o caso das pessoas deixarem de lhe dar valor e perderem carteiras a torto e a direito!
Ou, porque é que eu haveria de poder mudar a pilha da Via Verde do meu carro aqui, se Tomar nem tem nenhuma auto-estrada? É que indo ao Carregado sempre posso fazer umas compras.
Bom, isto e uma série de outros serviços que, convenhamos, ficavam ali todos à mão de semear, o que poderia criar graves problemas sociais. Sim, pensemos nas multidões de desocupados que estaríamos a promover, ou pior, vai que essa malta deixava de faltar ao trabalho para tratar desses assuntos? Ufa, o gasto em subsídios de refeição que se deixavam de poupar!...

E, ficamos ainda a perceber que o fundamento principal dessa decisão, para além desta moralização social, são os eventuais custos da instalação dessa mordomia, e muito bem, conservai-nos esta câmara por muito tempo, que há que saber ter prioridades – tanta boa obrinha que tem sido feita, ia-se lá agora gastar dinheiro com uma inutilidade dessas!
Certo, é verdade, instalar uma dessas lojas não custa mundos e fundos, mas cada cêntimo conta e é importante interiorizarmos que temos afinal, uma câmara que faz uma gestão que todos reconhecemos ser de grande rigor económico-financeiro.
Na vida como na política, tudo é uma questão de opções e prioridades, e alguém pode comparar essa idiotice de ir ali assim a um sítio, para numa hora ou duas tratar dos documentos todos, quando podemos andar às voltas em lombas e rotundas a fazer o rali dos serviços públicos?! E querem ver que agora para termos essa lojeca tínhamos que prescindir de ter por aí mais umas lombazitas?
É que estes trocos que se iam gastar podem muito bem servir, sei lá, para pôr mais uns holofotes na cibernética, ou abrir fechar abrir fechar abrir fechar aí mais dois ou três buracos. Já para não dizer que tem de se guardar algum dinheiro de bolso para os trabalhos a mais de uma qualquer obra que por aí apareça. Sim, é na previdência que está o ganho, e é bom que se atente nestes exemplos.
A câmara tem custos complicados! Ora, quanto custa arranjar um jardim para ficar o mais igual possível? Hum? E pagar as avenças da malta toda? E a gestão do pessoal? Hein? Já viram o que é pagar a funcionários que guardam paredes dum parque de campismo que não funciona há mais de quatro anos? E não se ponham já a dizer que as receitas do parque nestes quatro anos davam para isso e muito mais, que isso do campismo é coisa de pobres, e cá em Tomar não há disso!
Gerir uma câmara tem muito que se lhe diga, e não queiram agora julgar que percebem disso alguma coisa. Troco a troco, arranjam-se os 50 000 euros para pôr a cidade iluminadita. Vão dizer que abdicavam disso para ter melhores serviços?

Todos os tomarenses devem estar satisfeitos. Eu por mim cada vez estou mais contente com o cheque em branco que os tomarenses passaram ao presidente e ao partido que, assim como a assim, faz a gestão da câmara. Já viram se têm eleito alguém com projecto e programa eleitoral? É que isso retirava-nos todo o prazer destas boas surpresas!
Pelo que, em meu nome e nome do PS de Tomar, gostaria de comprometer-nos a doravante, não fazermos a câmara perder mais tempo com inutilidades e vamos fazer um grande esforço de seguir a vossa linha e só propor coisas verdadeiramente relevantes. Posso adiantar por exemplo, que estamos já muito empenhados a tentar auferir em estudo aprofundado, sobre quantos locais poderíamos ainda construir uma rotundazita, ou ainda, o que mais da nossa terra poder destruir, a fim de cada vez mais, nos parecermos com coisa nenhuma.
Não consigo deixar no entanto de, desculpai uma vez mais, isto deve ser essa coisa do orgulho tomarense que ainda não consegui perder, humildemente deixar um último pedido. É que em breve, uma quantidade enorme de concelhos vai ter essas supérfluas Lojas do Cidadão, de forma que, e só para não nos ficarmos atrás, mas naturalmente pugnarmos pela nossa diferença, será que não podiam os visionários que lideram a autarquia tentar arranjar-nos, até porque talvez tivesse mais a ver com a vossa política, e naturalmente apenas se isso não impedir a construção de nenhuma nova rotunda, assim, sei lá, ao menos, uma tasca do cidadão?

sábado, outubro 20, 2007

Sexta-feira 13 de Outubro de 1307

artigo publicado no jornal Cidade de Tomar de 19 de Outubro

Em Outubro de 2007 o 13 foi ao sábado, mas tal não significa que não fosse um dia que merecesse destacar. Porquê? Porque foi este dia 13 passado que assinalou exactos 700 anos que em Paris, Jacques de Molay, vigésimo segundo e último grão-mestre da Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão, mais conhecidos como Templários, era capturado e levado para os calabouços do até aí Templo da Ordem na capital francesa.
Assim como ele, centenas de outros cavaleiros eram presos e severamente torturados por toda a Europa e muitos acabariam tal como o grão-mestre queimados na fogueira, simbolizando esse dia como aquele que marca o fim da que, criada dois séculos antes por nove cavaleiros liderados por Hugo de Payens, se havia surpreendentemente transformado na mais poderosa, respeitada e temida Ordem de cavalaria.
Muito mais que simples monges ou cavaleiros guerreiros, a ordem tornar-se-ia numa instituição com fortes influências quer política como financeiramente. Fora o papa Inocêncio II quem, por razões pouco apuradas, concedera uma bula que lhes outorgava poderes ilimitados, sendo declarados "isentos de jurisdição episcopal", constituindo-se desse modo em poder autónomo, independente de qualquer interferência, política ou religiosa, quer de reis quer de prelados, e que acumulara vastos domínios em mais de dez países, vindo a enriquecer ainda mais através da concessão de créditos a reis, nobres e clérigos, cobrando juros sobre esses recursos, estabelecendo o embrião do moderno sistema bancário.
Por inveja e cobiça dos tesouros e conhecimentos de presumíveis segredos embaraçosos, como as conhecidas conjecturas do Santo Graal – o cálice sagrado, ou da teorética descendência de Jesus, a tramóia conjecturada por Filipe IV O Belo e o seu fantoche papa Clemente V, havia sido alcançada com sucesso. Era preciso destruir essa organização afim de se apoderar dos seus recursos e aniquilar a sua possível ameaça, acusando-os de hereges e de uma série de outras perfídias. E mesmo que mais tarde a verdade fosse reposta, a ferida havia sido demasiado profunda para recuperar o irrecuperável, ou assim se acredita.
Mas Jacques de Molay e os seus Templários haviam todavia vencido a malvadez do invejoso rei. O tesouro e os segredos que procurava desapareceram misteriosamente, sendo até hoje motivo de lendas e mitos. Diz-se que carroças cobertas de feno saíram de Paris na noite anterior, diz-se que navios ancoraram em sabe-se lá quantos portos.
Diz-se que os Templários não desapareceram, mas apenas adormeceram, converteram-se, adoptaram outras divisas, mas que em verdade ainda andam por aí… Diz-se muita coisa, e a verdade provavelmente nunca se saberá. Mas é isso que adoça o mistério e aguça a curiosidade, basta que pensemos em fenómenos como o livro e posterior filme “O Código Da Vinci”. São milhares os apaixonados em todo o mundo nesta matéria, afinal, quem não gostaria de descobrir um tesouro, ou de se achar na posse de um segredo milenar?


Bom, perguntará o caro leitor: - certo, história interessante, mas tem isso algo a ver com Tomar ou é só para dar ares de intelectual?
E eu direi, pois tem tudo, e nada.
Tudo, porque a seguir a essa fatídica sexta-feira 13 desse Outubro longínquo, e que até hoje associa sem que a maioria saiba porquê esse epíteto de azar a essas sextas-feiras, os Templários que sobraram, e ainda eram muitos, fugiram para locais seguros, um deles Portugal, e em Portugal Tomar, devendo-lhes nós grande parte do que somos. E porque D. Dinis, um dos mais cultos e visionários soberanos da nossa história, convenceu doze anos mais tarde o novo papa João XXII a autorizar a criação da Ordem de Cristo, convertendo, acolhendo todos esses cavaleiros em fuga, assim como as suas posses e os seus conhecimentos. E porque se acredita que Portugal (ou, porto do Graal?) pode ter sido o ou um dos portos seguros dos seus tesouros.
Tudo porque, com sede em Tomar, sendo Tomar guardião dos segredos e das descobertas da nova Ordem, foi essa que, usando nas velas das caravelas a marca templária, “descobriu novos mundos ao mundo” na epopeia dos descobrimentos, na mais áurea época do nosso país, quando fomos efectivamente império, quando fomos centro do mundo, e quando Tomar era por isso um dos locais mais importantes e simultaneamente ocultos desse mundo de então.
Nada, porque apesar de toda esta propriedade, de todo este potencial, do Convento de Cristo sede das duas Ordens e também ele detentor de segredos, monumento património mundial (mesmo que não figurando nas mais ou menos 7 maravilhas), e de termos como nossa uma marca reconhecida em todo o mundo, o que sabemos aproveitar para nosso benefício, para desenvolvimento turístico, para criação de riqueza, e até mesmo reconhecimento do concelho ao menos no contexto nacional, é mais ou menos isso: nada.
E isto leva-nos ao facto de que, se essa azarada sexta-feira 13 de Outubro de 1307 acabou por ser proveitosa para Portugal e para Tomar, de há uns anos para cá a coisa inverteu-se e aqui pelas margens do Nabão, e numa cidade que foi líder e pioneira em tanta coisa, hoje somos constantemente ultrapassados e até parece que todos dias são dias de infortúnio.
Pelo que é caso para perguntar: onde anda esse sangue templário que é suposto correr-nos nas veias? Está oculto esperando o momento de ressurgir, ou desapareceu de vez nos resquícios da memória e nas mordomias letárgicas dos tempos modernos?

domingo, outubro 07, 2007

Os trintões nabantinos

artigo publicado no jornal Cidade de Tomar de 5 de Outubro.

“Ter trinta anos em Portugal” foi o tema de capa e excelente reportagem da revista Visão de 20 de Setembro. Ao ler esse trabalho sobre “o retrato da geração pós-25 de Abril que está a mudar o país”, não sei se por pouco mais de um mês me separar dessa efeméride, dei por mim a pensar e a transpor para a visão nabantina do assunto: como é ter trinta anos no concelho de Tomar?
Nessa reportagem são em primeiro lugar focadas as referências, desde as séries infanto-juvenis como a Abelha Maya, o Tom Sawer ou o excelente Verão Azul (que comemorou inclusive 20 anos no ano transacto), ou o facto de sermos do tempo em que o computador era uma coisa chamada Spectrum e que funcionava a cassetes; e telemóvel, digo eu, só nos filmes do 007.

Sendo certo que esses anos da infância e da adolescência são por norma aqueles que definem a nossa personalidade, os gostos, e muito do tipo de vida que vamos seguir, que referências temos para além dessas cá pelas margens do Nabão? As matinés de Quarta ou Sexta-feira no Pim-Pim ou, naqueles tempos em que eram os de outros concelhos que a Tomar se deslocavam, as noites da Excêntrica que acabavam mesmo bem com um mergulho no Zêzere ainda antes do nascer do sol. Um copo de “Mouchão” fresquinho, que só nos já idos nas cinzas da memória “Passarinhos” é que sabia daquela forma. Enfim, sobra felizmente o Paraíso pouso de todas as gerações, e vêm ainda de parte desse tempo o Casablanca ou o Lá Calha. Bebemos as primeiras imperiais com umas moelas a acompanhar no Noite e Sol, e era ao Texas que íamos comer o bitoque.

Acompanhámos o nascimento e a evolução dos Quinta do Bill, assistimos ao fecho do Cine-Teatro (reaberto já mas onde o cinema já não tem o fulgor desses tempos), onde antes íamos às sessões infantis de domingo de manhã e lembramo-nos do Festival de Cinema que nesses tempos do Vasco Granja na RTP, emprestava a Tomar reconhecimento. Lembramo-nos de andar de barco no rio, jogar à bola no pelado da nabância (não eu, que nunca fui dado a essas artes!); os passeios na mata, e até fazer o percurso de manutenção que em tempos lá existiu. (Quantos tomarenses entram hoje na mata?)
Perdíamos tempo nos snookers da Gualdim Pais ou do Académico, ambos ainda por lá, mas que já não são a mesma coisa porque, como será seguramente para todos os adolescentes, o tal tempo parecia ter outro tempo.
Muito mais poderia ser lembrado e cada um terá as suas memórias, os seus lugares, e a forma como as guarda ou as esquece, é um exercício que a cada um se reserva.

Mas revividas as memórias, que perspectivas, que ambições, que presente e futuro têm os trintões nabantinos? Nós que, talvez mais despertos, talvez menos apegados a um outro passado, vimos crescer os concelhos à nossa volta, vimos essas terras desenvolverem-se, e já pouco chegámos a conhecer o tempo em que Tomar era a referência e o líder incontestado da região. Há no entanto quem não consiga ver ou aceitar que essa é a realidade. Tomar está em degradação, e a continuar o actual rumo só poderá agravar-se.
Ainda este domingo, quando ajudava nas mudanças da minha irmã para a sua casa nova em Abrantes pensava: como se consegue convencer os mais novos a ficar? Todos os dias parte alguém, esta terra envelhece cada vez mais, mas que razões podemos encontrar para mudar isso?
Empregos, difíceis; qualidade de vida, alguma sim, mas cada vez menos, ou cada vez menos tem algo que se destaque doutros locais, e em muitos aspectos já está a perder, e ainda por cima uma cidade bonita não nos mata a fome.

Eu… tenho um gato, mas dizem as estatísticas que uma boa parte dos da minha idade estarão casados e com um filho, mas essas estatísticas também não jogam a favor dos Tomarenses. Se para um é difícil, para dois é-o (obviamente) a dobrar. Onde arranjar uma casa? Construir uma nas aldeias? Mas nos poucos sítios onde é possível, só para a licença, além do que custa demora uns dois anos. Comprar apartamento? Seja novo ou usado, os preços são o que sabemos em Tomar, iguais aos de Lisboa, não falando nos preços da água, do saneamento. É que até os supermercados em Tomar, parecem ter preços acima da média dos outros concelhos!
Além dos poucos que não enxergam a realidade, e dos que a vendo a tentam esconder, há quem ache não ser possível dar volta isto, outros que assim mesmo é que deve ser, que esta deve ser uma terra “pacatinha”, onde deve morar quem paga para ter sossego, quem tem dinheiro para pagar a tarifa de viver numa espécie de museu, que é de facto para onde nos encaminhamos.

Eu acredito em algo distinto, que não precisamos mudar o que somos, nem alterar a nossa identidade, essa marca que ainda faz de Tomar algo diferente, e no entanto encontrarmos formas de poder sobreviver a nos tornarmos uma vilazinha engraçada nos subúrbios de outra coisa qualquer. Acredito que há quem queira investir, assim os deixem; que há quem queira trabalhar, assim lhes dêem oportunidade; que a maioria prefere continuar a viver por cá, assim consiga. Mas para isso é preciso que se assumam responsabilidades, responsabilidades que começam em cada um de nós, que sejamos críticos e interventivos, e que Tomar perca esta característica quase genética de deixar que dois ou três (ou nos últimos tempos um), decidam por todos os outros. O presente e o futuro está nas mãos dos tomarenses, e muito nas mãos desses trintões, é preciso que o assumam e que o exerçam.
Senão, bom, senão os trintões nabantinos terão cada vez menos problemas, porque em verdade serão cada vez mais uma “espécie” em extinção, porque a maioria abandonará Tomar antes de completar essa idade, ficando apenas os que podem e os que como eu têm o seu quê de teimosos.
Estarei errado?

sábado, setembro 08, 2007

Numa terra longínqua…

artigo publicado no jornal Cidade de Tomar de 7 de Setembro

Era uma vez uma pequena terra, presa num formoso vale entre um rio serpenteante e um antigo castelo. Uma terra de histórias e lendas, de feitos e feitiços, e de acontecimentos que em mais lado nenhum se viam.

Nessa terra governava um homem que se entendia iluminado. Outrora estrangeiro, chegara com promessas de coisas novas e de progresso. Conquistado o poder, pensou criar uma obra que fosse a sua imagem, que mostrasse a todos a sua capacidade de governar, que fizesse as pessoas sonhar e admirar. Depois de pouco pensar decidiu, «Vou construir uma fonte!». «As fontes tem o seu quê de mágico, todos gostam de água, então se for água a saltar e a cair, e com luzes e tudo mais, o sucesso é garantido» pensou. Pensou, decidiu e mandou fazer. Mas a coisa não correu bem ao desventurado governante, pois apesar das arcas carregadas de moedas de ouro que gastou, o povo da terra não percebeu o engenho e arte da sua criação, e além do mais havia um bruxedo qualquer que enguiçava a obra que não parava de avariar.

É preciso outra coisa, outra obra magicou, «O que é que eu posso fazer que seja o espelho da minha mestria e mostre como estou muito à frente dos incultos cá da terra? Já sei, coisa inovadora, vou fazer um palácio onde as pessoas possam guardar as suas carruagens do sol e da chuva, enquanto fazem compras aqui no centro deste malfadado sítio». Dito e feito, contra todas as dificuldades que alguns locais com a mania que sabiam alguma coisa de governação lhe tentaram colocar, e com um grande carregamento de arcas de moedas, a obra nasceu.

Mas triste sina de quem tem razão mesmo que sozinho, nasceu torta, parece que as pessoas não iam lá pôr as carruagens, mais, até parece que nem sequer iam fazer compras ali perto, é que até parece que faziam de propósito!

O governante desesperava, mais sorte tiveram os seus antepassados que podiam simplesmente obrigar as pessoas a cumprir a sua vontade, mas agora corriam aqui e ali aquelas ideias diabólicas de conferir às pessoas a ideia de que podiam escolher e tomar decisões, e isto só complica a vida de quem tem tamanhas responsabilidades.
«Mas não me dou por vencido», pensou, «se não vai lá com um palácio, faço outro, e desta vez será ainda mais engenhoso, será subaquático! E se dez arcas de ouro não chegarem, que sejam vinte!»

Ora está-se mesmo a ver, uma vez mais, o povo da terra não colaborou e a coisa não correu bem. Achavam que aquilo não estava bem, que estava mal planeado, mal localizado. Ainda não era aquela a obra pela qual seria lembrado nos anais da história.
«Maldição! Mas que preciso fazer para contentar esta gente?!» Chateado, contra tudo e todos e até a própria corte, que embora não o dissesse não gostava da ideia, mandou fechar um pequeno parque onde peregrinos e visitantes vinham apreciar a terra – chamavam-lhe campistas e traziam moedas que por lá deixavam. Fê-lo pensando «nesta terra ninguém dorme ao relento, aqui só nas melhores hospedarias», mas claro, mais uma vez foi incompreendido. Parece que as pessoas gostavam mesmo de dormir no chão debaixo dumas tendas.

«Mas onde é já se viu isto, eu trago-lhes conforto e é assim que me tratam?!» exasperava, «Mas porque será que não consigo fazer nada que não dê buraco?! Vou-me embora, vou procurar outros que mereçam mais!».
Mas faltava a obra, faltava aquela marca que o tornasse imortal, que tornasse o seu nome merecedor das mais exuberantes homenagens e das mais doces memórias. Não era apenas isso, para dar lugar a novas e boas memórias era preciso primeiro apagar as que lembravam da má governação, as pessoas regem-se por símbolos e imagens, então, era preciso eliminar os maus símbolos e substituí-los por outros. Por muito que isso custasse!

E qual era o grande símbolo, bem à vista de todos, do desastre do seu comando? A fonte, a velha fonte, que velha não era pelo contrário, mas vil feitiço, parecia velha e podre. Era preciso eliminar aquilo, fazer outra. Tudo o que é novo, mesmo que por pouco tempo contenta as pessoas. «Arrase-se isto e uma nova se faça!», ordenou. E se calhar, se calhar até o parque, aquela coisa de pobres, se calhar até aquilo podia abrir outra vez…

Mas a obra, a obra que perdurasse faltava ainda. «Já sei, eureka! Uma ponte, uma ponte pelo altíssimo!» As pontes também têm o seu quê de mágico, servem para unir coisas, pessoas, são como elos, e são obras que impressionam, mesmo que colocadas num sítio onde não servem para grande coisa.
Naturalmente, por esta altura as finanças do sítio já não andavam muito bem, mas isso seria problema que outros resolveriam, importante importante era a sua obra e o governante, já não tão jovem, já pouco amado, mesmo que ninguém mais o entendesse, e que a própria corte lhe dissesse sim pela frente e o contrário às escondidas, precisava dessa obra.

Mas, uma ponte seria pouco, havia ainda muitas marcas negativas, a obra tem que ser muito impressionante para fazer esquecer o resto. «O que hei eu de fazer mais?…». Pois havia lá no centro do lugar, um mercado já um pouco antigo, esquecido até aí pelo governante mas apreciado pelos habitantes, onde iam vender os produtos da terra, onde se encontravam com os amigos, e onde mesmo os só de passagem gostavam de entrar, por muito sujo e decadente a que tivesse chegado.

Nem mais. O governante, que o que gostava mesmo era de demolições delirava «É isso, é mesmo isso, vou deitar aquela coisa bafienta e a cheirar a peixe abaixo, e fazer ali mais um palácio, um palácio onde entrem pessoas finas, onde se vendam os melhores linhos e se façam os melhores gourmets! E como vou fazer a bela ponte mesmo ali ao lado, aquilo vai ser uma das sete maravilhas que a terra não tem! Vamos lá ver se se lembram de mim ou não!»

O governante rejubilava, inchava de orgulho com a sua imaginação e capacidade de ver o que mais ninguém via. Pois, é que, está-se mesmo a ver não é? Há coisas que não mudam, e o resultado… bom, o resultado fica como a moral desta história, passada lá nessa terra longínqua esquecida no tempo e no território, para o entendimento de cada um. Não é assim tão difícil de lá chegar, pois não?…

quarta-feira, junho 20, 2007

Ota ou então?

artigo publicado no jornal Cidade de Tomar de 15 de Junho


A discussão tem provocado páginas imensas nos jornais e horas infindáveis de discussão, especialmente quando alguns sectores (alguns políticos, outros económicos) perceberam que a decisão era para executar.
É afinal uma característica bem vincada da mentalidade portuguesa, aliás aplicável em muitas outras situações. Enquanto os assuntos se debatem, enquanto os estudos se promovem, ninguém presta muita atenção ao assunto, e faz conscientemente por nem ligar, na expectativa ou no hábito, que a coisa ande por ali a marinar e no fim dê em coisa nenhuma. Que ninguém decida.
Mas assim que alguém toma uma decisão logo um coro se levanta apresentando mil e uma soluções, mesmo que muitas esquecendo aspectos muito elementares mas que ajudam ao ruído, criticando tudo de possível sobre a decisão tomada.
E enfim, sobre a Ota mais do mesmo. A questão é em verdade muito simples: aos políticos o que é de política, aos técnicos o que é de técnica.
E aqui há algo que dificilmente é percebido pelos cidadãos em geral e que também ninguém se interessa em esclarecer. Há questões técnicas que devem estar à priori, há outras que só se colocam depois da decisão, seja ela qual for.
Imagine que quer construir uma casa num determinado terreno. Há efectivamente algumas questões técnicas que tem de saber à priori: se o PDM o deixa construir naquele terreno, qual o índice de construção, etc. Depois você toma uma decisão, quer construir, e a seguir o arquitecto ou o engenheiro fazem os estudos necessários para realizar a sua decisão em função da inclinação do terreno, do tipo de terreno, se quer com varandas ou sem varandas, com três ou quatro quartos, e por aí fora.
Acontece que nesta discussão sobre o novo aeroporto, e medidas as distâncias da comparação, a situação é muito parecida. Muitos têm tentado enviar para o lado da técnica questões que são meramente políticas, ou seja, que se situam no campo da decisão que atinge factores longe dos meramente técnicos, logo o que aqui é relevante, é que politicamente há duas opções: decidir, ou fazer como era costume, não decidir.
O que há aqui de técnica à priori, é saber económica e ambientalmente qual a melhor localização, saber qual será mais benéfica para o maior número de pessoas e instituições, qual serve melhor o país e apresentará maiores índices competitivos. Depois decide-se. Tomada a decisão, então os técnicos estarão lá para tornar a sua execução possível. Sempre foi, e sempre será assim, se as situações decorrem com normalidade. Se o terreno é mais ou menos plano, se a pista é para norte ou para oeste, tudo isso é mera execução técnica da decisão que é política.
A discussão, ou o ruído a que se tem assistido não é mais do que as permanentes forças de bloqueio, com este ou aquele interesse, que sempre se manifestam nestas alturas. E mais estranho são ainda o que antes defendiam a Ota e agora mudam de opinião.
Efectivamente durante anos se tem discutido o assunto. Há muitos anos que, com diferentes governos, ouvimos falar no novo aeroporto e na Ota. Entretanto o aeroporto da Portela atingiu as últimas e, ao contrário de Lisboa e do país, é um entrave ao desenvolvimento turístico e não só.
Talvez este seja outro aspecto mal explicado, o quanto um bom aeroporto é essencial para o desenvolvimento a vários níveis de um país.
Lembremo-nos que a melhor época de Portugal, aquela em que mais se desenvolveu, foi quando pelo país e pela capital passava parte do mundo. Sem comunicação não há desenvolvimento mas sim esquecimento. Numa escala diferente, veja-se o que tem acontecido a Tomar, pelo facto da A1 ter passado longe e os bons acessos terem tardado.
Isto para dizer que, sem boas plataformas de comunicação e deslocação de pessoas e bens, nenhum país ou região se desenvolve, seja hoje, fosse há mil anos, e certamente o será assim também no futuro.
Hoje, um bom e atractivo, competitivo aeroporto é essencial, em especial para um país que é a porta de entrada e saída da Europa para ocidente e para o sul.
Parece vá lá, que a necessidade do aeroporto está genericamente entendida. Vamos então à agora tornada tão complexa questão da sua localização e para isso alguns dados:
as principais auto-estradas e a principal linha ferroviária do país e de ligação deste com Espanha, assim como o futuro TGV, estão a norte do Tejo; chega-se mais depressa à Ota, para onde não há filas, do que a qualquer lugar da margem sul, onde é preciso atravessar a ponte (acho que ninguém pensa ir para o aeroporto e apanhar o barco!); 92% (convém repetir: 92%!) dos utilizadores do actual aeroporto estão ou vêm para norte do Tejo; é a norte do Tejo que estão a grande maioria das empresas e das populações, e logo também dos contribuintes.
Pelo que, volto a dizer, a questão me parece simples. Atendendo a que o investimento de um aeroporto não é bem como construir uma rotunda, e com seriedade ele tem que ser visto como um equipamento que chegue com eficácia ao maior número de pessoas, da forma mais competitiva, e com a maior capacidade de criação de desenvolvimento e riqueza, se fosse você caro leitor, que tivesse a responsabilidade dada pelos seus concidadãos, com a consciência e a capacidade de avaliar recursos, gastos e proveitos – onde é que decidiria construir o novo aeroporto?



Aditamento: Quando escrevi este artigo, não tinha ocorrido ainda o timeout para estudos em Alcochete. Devo no entanto dizer que continuo a acreditar em cada palavra que escrevi, e que a actual situação me parece aliás bastante perigosa. Um mau princípio, exactamente pelo que no artigo refiro quanto "aos políticos o que é de política, aos técnicos o que é de técnica", não fora como dizia alguém algures num jornal, termos agora um país cheio de especialistas em aeroportos.

E muito importante, algo que me esqueci de referir no artigo - a questão da Ota foi sufragada pelos portugueses. Bem sei que ninguém liga chavo aos programas eleitorais, e que há até como em Tomar, quem ganhe eleições sem um, mas o facto é que no programa de Governo do PS está lá a Ota, e foi no PS que os portugueses votaram e atribuiram portanto a responsabilidade de tomar decisões.